Talento para exportação

Criação autoral: Lui Iarocheski leva Santa Catarina para o mercado de moda internacional.

O mercado de moda catarinense, conhecido por toda sua força têxtil, sempre se questionou sobre por que um grande nome no mercado de moda nacional não despontava. Várias foram as tentativas e os projetos, porém, nada acontecia. Muitos talentos recém-formados costumam empreender com suas marcas próprias, mas sem gestão e fôlego financeiro eles logo somem do mercado. Outros jovens profissionais são absorvidos por marcas e indústrias que trabalham com times criativos, sem destaque para um nome específico. Nossa poderosa indústria fomenta a moda nacional com seus patrocínios, seja em forma de produto ou de dinheiro. Santa Catarina é um dos estados brasileiros que mais investe em eventos, como o SPFW e seus estilistas. Nada mais justo, afinal, dentro do negócio de moda o posicionamento é essencial, e se os holofotes não estão no nosso estado a saída é buscar parcerias em que a visibilidade aconteça. Porém, sempre houve o desejo de exportar talentos produzidos pelo estado para o mundo, como acontece em Minas Gerais, por exemplo, que tem se fortalecido com a evolução da moda local através de nomes que conquistam o Brasil. Sim, é possível fazer sucesso fora do eixo Rio–São Paulo, e era disso que precisávamos para fortalecer a imagem criativa de Santa Catarina na moda. Finalmente chegou o momento de conhecer um jovem talento que em pouco mais de dois anos levou Santa Catarina para mercados internacionais. Desfilou na Suécia, participou como estilista convidado da Vancouver Fashion Week, no Canadá,  recebeu convite para desfilar em Nova Iorque na próxima temporada e propostas de showrooms para a semana de moda francesa. Com uma linda história de vida, Lui Iarocheski é um dos jovens que passou pela Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc), conhecida como uma das melhores escolas de moda do Brasil, com DNA de criação autoral.

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Aos 26 anos de idade, Lui tem um nome imponente, que representa a imagem que vem construindo como talentoso designer de moda. Mas no comportamento ele é tímido, tem um sorriso doce e fala com ingenuidade ainda sobre as recentes conquistas. Com muita humildade, diz que nem sabe como tudo está acontecendo tão rápido em sua vida. Mesmo ansioso, tem sido estratégico no caminho que vem trilhando. Ao ser questionado sobre sua infância e as lembranças que traz em sua memória, tranquilamente diz que não gosta de falar sempre sobre o assunto para não parecer um clichê ambulante, afinal, ele viveu a perfeita história de contos de fadas. Lui refere-se ao fato de ter vivido uma infância simples, filho de Elzi Pires, uma empregada doméstica que dedicou a vida a criar seu único filho sem a presença do pai, que ele não conhece até hoje. Apesar de não ter crescido em um ambiente lúdico ou criativo dentro dele existia a vontade de conhecer muitas pessoas, viajar pelo mundo todo, e foi isso que o motivou desde cedo a batalhar pelo que queria. Ganhou bolsas de estudo, e aos 18 anos coseguiu um intercâmbio para os Estados Unidos. Pensou que o caminho seria estudar comércio exterior, entrou na faculdade, mas seu interesse já estava dentro da moda: ele costumava direcionar seus estudos para a internacionalização de marcas. Durou um ano no curso e decidiu estudar moda. Ingressou também no mercado de trabalho, atuando com pesquisa de tendências em um grande grupo de marcas de óculos, e foram quatro de imersão, tanto na faculdade como no emprego. Ele já estava iniciando o seu trabalho de conclusão de curso, quando percebeu que não estava preparado para fazer algo diferente.  Lui explica: “cansei de fazer mais do mesmo, precisava respirar, por isso decidi estudar fora”. Conseguiu uma grande oportunidade através da Udesc, que possui um acordo bilateral com a melhor universidade de moda da Suécia. Esse foi o momento da virada na vida do estilista. Foi na Suécia que teve contato com uma nova visão no processo de criação, uma nova metodologia. “A grande diferença está na visão deles dentro do curso, que é muito mais experimental. Enquanto nós olhamos para a moda com viés no design, eles veem a moda através das artes visuais (fine arts). Isso me atraiu muito mais.” Lui percebeu que não precisava ficar preso aos modelos tradicionais que havia conhecido no Brasil. Encontrou um caminho muito mais intuitivo dentro do seu processo criativo, em que o valor está mais focado na opinião do criador e menos no mercado de trabalho. Em 2014 começou a trabalhar na sua coleção de formatura; optou por trabalhar com o universo masculino, que sempre o atraiu pela atitude, agressividade na imagem e, principalmente,  pelo desafio de ousar no segmento masculino. Ele explica que o seu estímulo criativo está na expressão visual do corpo masculino e não tanto no novo padrão de comportamento de consumo dos homens. O que o atrai é a estética, e não o mercado de atuação. Dessa maneira, surgiu a coleção de formatura, com muito estudo prático e mão na massa. Lui costuma falar que não tem inspiração poética e abstrata, como tantos outros estilistas.

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Em sua primeira coleção, explorou formas geométricas – quadrados e retângulos – e como essas formas se expressavam sobre o corpo masculino. Criou centenas de experimentos, fotografava todos, colava-os em seu sketchbook (caderno de colagens), avançava na decisão, depois voltava atrás. Foi um ano e meio nesse processo de incubação da coleção. Foi nessa época que conheceu Alexandre Novakoski, um profissional da área de tecnologia que resolveu investir em moda. Foram meses de conversa, até que viraram sócios na empresa AoCa, que vai muito além da marca Iarocheski. A união da dupla gerou uma aceleradora de novas marcas, um projeto de incubadora, pronto para ser implantado no mercado catarinense. Ambos explicam que a marca Iarocheski é um protótipo a ser aplicado a novas marcas, que devem fazer parte do grupo em breve. É aqui, quando falamos do negócio em si, que aparece um novo lado do estilista, o perfil de empreendedor social. Um jovem preocupado em desenvolver a cadeia da moda de forma completa. A ideia começou quando Alexandre buscava profissionais de Florianópolis que fizessem algo diferente. Em uma rede social ele encontrou Lui e fez contato. Para o estilista, foi a oportunidade de compartilhar a vontade de ajudar outros talentos a viabilizar seus sonhos, jovens estilistas que possuem bons projetos, mas precisam de estrutura para gerir de maneira profissional suas marcas, assim como vem acontecendo com ele. Durante esses dois anos de marca, a Iarocheski recebeu investimento de R$ 600 mil até o momento. Lui tem o perfil do estilista que o mercado atual busca, o profissional que vai além da criação. “Gosto de gestão. Gosto da ideia de viabilizar um projeto, construi-lo e depois deixá-lo seguir o seu caminho com outros profissionais. Tem tanta gente talentosa fazendo trabalhos incríveis, quero ajudar a fomentar o mercado com essas novas ideias. Por isso, na nossa empresa temos como missão desenvolver pessoas, esse é o foco do nosso negócio. Quero envolver pessoas. Ter impacto em outras vidas, essa relação com o outro é importante, agrega para todo mundo. Moda é uma ferramenta para isso, porque envolve muita gente. A roupa é um instrumento para desenvolver pessoas. Não apenas estilistas, mas modelistas, costureiras, a cadeia da moda completa.” A referência do projeto que Lui tem em mente é a Antuérpia, capital da moda belga, um mercado relativamente pequeno, que chama atenção do mundo inteiro pela criatividade de seus estilistas. Diz que Santa Catarina tem potencial e chances reais de seguir o mesmo caminho. Seu sócio, Alexandre, afirma que, diferentemente de tantas outras marcas nacionais, eles não têm como objetivo lutar contra o consumo do produto chinês. Na visão que estão construindo, o foco está no valor agregado: moda experimental aliada à sustentabilidade da cadeia. Lui é enfático ao afirmar que não é seu objetivo atrair muitas pessoas com a marca Iarocheski. A ideia é ter várias marcas para atingir várias pessoas, já que o autoral não pode ser massificado. “Somos uma empresa com modelo social. Não concordamos em dar esmola, mas queremos criar oportunidades para que mais pessoas possam desenvolver seus sonhos. Estamos buscando novos estilistas para lhes dar apoio e trazê-los para o grupo. Muitas pessoas que surgem no mercado logo somem. Vejo que isso também acontece porque não trazem ninguém junto com elas. Seguem sozinhas, isso dificulta muito.”

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Não há dúvidas de que ele já realizou o sonho de quem trabalha com criação: suas duas participações internacionais foram muito bem-sucedidas. Com diferentes contextos, cada uma agregou importantes experiências e trouxe muita visibilidade para o seu trabalho. O retorno da mídia internacional foi imediato, e a sua participação em Vancouver despertou o interesse da imprensa brasileira. A semana de moda canadense foi fundamental para o contato e o relacionamento com o mercado comprador internacional; muitas foram as propostas recebidas de showrooms e lojas em diferentes países. Tókio, por exemplo, deve receber em breve as criações da Iarocheski. Todo o retorno dessa participação em Vancouver chamou a atenção também da organização da semana de moda americana. Apesar da enorme vontade de seguir com a proposta, Lui prefere estrear com uma coleção que possa ser trabalhada com calma, dentro do seu próprio tempo, e como a próxima edição do evento acontecerá em fevereiro de 2016, preferiu deixar a possibilidade em aberto. “Desfilar em Nova Iorque será um grande passo, por isso quero ir com a coleção que desejo, desenvolvida com o tempo necessário para a criação em que acredito. Para participar em fevereiro, precisaria correr para desenvolver uma coleção, que não teria o meu melhor olhar.” O mesmo aconteceu com os convites que recebeu para expor em Paris. Na próxima temporada ele deve trazer novidades ao Brasil, já que é um dos novos nomes a integrar o casting de talentos da Casa de Criadores,  evento que é reconhecido no Brasil por apresentar criações autorais. O próximo ano deve ser ainda o momento de viabilizar a venda comercial de suas criações, que acontecerá de diversas maneiras, tendo a plataforma on-line como principal delas. Mesmo o consumidor comprando no site, a intenção é trazer o slow fashion (termo utilizado para definir a moda consciente, de consumo mais devagar) para a marca. Desenvolver a peça após a compra realizada é o processo de venda que desperta desejo no estilista. Atualmente sua marca não é apenas masculina: com o enorme retorno das mulheres, que passaram a consumir suas criações, a Iarocheski passou a ser livre de rótulos. O ano de 2016 promete ser de crescimento para o jovem estilista, basta aguardar os próximo passos dessa carreira que leva a assinatura criativa de Santa Catarina.

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por Patrícia Lima
pauta publicada na Revista Donna, cliente Catarina

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