Slowness

O slowness é um novo movimento global que está se formando contra a cultura do “quanto mais ocupado melhor”.

Acorda. Checa o celular. Escova os dentes. Toma café conferindo os e-mails e o que tem que fazer no dia. Vai trabalhar. Transito. Fila. Trabalha. Reunião na hora do almoço. Trabalha.Sai com os amigos para um happy hour. Instagram.Volta pra casa. Checa o celular. Dorme.

DEVAGAR CARL

O imediatismo do mundo globalizado nos faz estar sempre correndo contra o relógio. Uma constante procura por meios de fazer mais coisas em menos tempo. A grande pergunta é: como chegamos neste ponto? Segundo o escritor Carl Honoré, autor do livro In Praise of slow (“Devagar” na versão em português” ) para chegar nessa resposta é preciso refletir sobre tempo. Em nossa cultura, o tempo é linear, estamos sempre o perdendo. E isso nos faz transformar cada hora do dia em uma corrida.

O momento da virada para Carl, quando decidiu desacelerar e tentar ver a vida de outro ângulo, foi ao descobrir que tinham lançado um livro infantil chamado “Histórias para dormir em apenas um minuto”, ele conta que de primeira pensou “Aleluia”, mas logo refletiu melhor. “Será que eu tenho tanta pressa de tudo que não posso desconectar e ler uma história para o meu filho com calma antes de dormir?”. Uma situação comum do dia-a-dia para os pais de todo o mundo, que deveria ser uma hora agradável com o filho para falar do dia e compartilhar um momento especial, mas nem sempre é assim.

A partir dai ele foi buscar saber mais sobre um novo movimento global que está se formando contra a cultura do “quanto mais ocupado melhor”, o slowness, que em tradução literal significa lentidão. Uma nova maneira de pensar que visa diminuir a frequência da rotina do mundo globalizado. A busca por uma vida mais lenta, equilibrada e perto da natureza contribuem não só com a qualidade de vida, mas também com o melhor aproveitamento de cada atividade realizada.

MERCADO SÃO JORGE  2

O movimento está presente em uma série de vertentes. no setor alimentício, o slow food já está espalhado por mais de 50 países e prega que podemos tirar mais  benefícios dos alimentos quando sua plantação, cultivo e consumo são realizados em um tempo razoável, respeitando cada processo.

Muitos de nós já aderiram a essa filosofia até mesmo sem saber, a repopularização das feirinhas de rua, agora, em versão orgânica e dos espaços destinados a produtos naturais mostram que cada vez mais pessoas estão se conscientizando dos benefícios dessa nova dieta. Os produtos industrializados estão abrindo espaço para refeições vindas da natureza, lugares como o Mercado São Jorge e o Empório Ubaiá, em Florianópolis, são bons exemplos de como esse movimento já conquistou uma legião de fãs.

Novo jeito de trabalhar

Quando se fala em metrópoles é difícil não pensar em trabalho, prazos e stress. O termo “workaholic” (viciado em trabalho) nunca foi tão popular quanto nos últimos anos, mas parece que até isso está passando por seu momento de transição. São muitas as histórias de pessoas que decidiram largar seus empregos em cidades grandes e se mudar em busca de qualidade de vida.

Trabalhar menos não significa render menos, muito pelo contrário. É possível ter uma economia forte sem viver de horas extras, basta olhar para países como Noruega, Suíça e Dinamarca que estão na lista de lugares com menor jornada de trabalho do mundo de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Até mesmo as tradicionais grandes empresas já estão se adaptando a essa tendência, construindo espaços de convívio e descanso dentro do ambiente de trabalho e aplicando horários mais maleáveis. 

Nomades digitais youtube

Dentro dessa tendência também estão os nômades, gente que aliou viagem à trabalho e agora está pelo mundo colecionando experiências sem abrir mão da carreira. Quem quiser conhecer melhor essa realidade, basta conferir as aventuras de Eme Viegas e Jaque Barbosa, conhecidos pelo site Nômades Digitais. O casal abandonou a correria da caótica São Paulo e resolveu apostar no sonho de ser livre. O primeiro passo para a mudança foi a criação de projetos digitais, e foi que assim nasceram as plataformas Hypeness e Casal Sem Vergonha. Inicialmente, os sites deveriam ocupar apenas o tempo livre de Jaque e Eme, mas com o tempo – e com o contínuo aumento de seguidores – eles viram que para o projeto realmente decolar era preciso dedicação integral.

Com os dois sites já conhecidos, o casal viu que finalmente era hora de ir em busca do sonho de trabalhar viajando. Apesar de inicialmente ser um pouco confuso de entender, ser um nômade digital não significa largar tudo sem olhar para trás. Aqui você não precisa perder para ganhar o mundo; carreira, conforto e novos projetos andam lado a lado, levado em consideração que para trabalhar só é preciso computador e boa conexão de internet.

O casal fez uma extensa pesquisa até realmente fazer as malas. A ideia por trás da plataforma Nômades Digitais precisava ser interessante e inovadora para se destacar em meio a tantos viajantes. O resultado é um site que une inspiração e informação: eles não só compartilham a vida na estrada com fotos, posts e webseries como também ajudam pessoas interessadas no assunto a organizar suas próprias estratégias e virar nômades digitais.

Grand Canyon

E justamente essa é a grande sacada do portal, muito mais do que compartilhar informação, eles também viram fonte de inspiração. Uma espécie de mentores para os muitos interessados em unir inovação e tecnologia em busca de uma agenda repleta de aeroportos.

Seja para anotar as dicas, ou para conhecer melhor essa nova tendência de comportamento vale à pena visitar a página e se perder entre as muitas histórias compartilhadas por lá.

Consumo consciente

Adaptar a forma com que se consome é uma das grandes batalhas do movimento slow. É preciso pensar antes de comprar algo, refletir sobre os efeitos que isso pode causar ao planeta. Na moda, as gigantes do fast fashion ainda atendem grande parcela do mercado, os preços baixos atraem consumidores que não pararam para refletir nas consequências dos números tentadores nas etiquetas.

Se uma peça é vendida por um valor muito menor que o de mercado, quer dizer que alguém no processo de confecção desse produto também está ganhando um valor muito inferior do que deveria. O slow fashion respeita cada etapa, da criação até a venda, tendo em mente que cada peça precisa de tempo para ser produzida com qualidade, a fim de durar mais no guarda-roupa e evitar consumo desnecessário. Segundo esse movimento, antes de comprar algo vale a pena se fazer algumas perguntas:

– Eu realmente preciso disso?

– Posso pagar?

– Com essa compra quero apenas me sentir incluído ou afirmar minha personalidade?

– Qual a origem compra e onde vai parar após consumida?

– Estou sendo iludido por Marketing ou Propaganda?

– Essa compra vai prejudicar o planeta de alguma forma?

Economia compartilhada

De acordo com o estudo realizado pela agência de pesquisa Box 1824, a evolução do consumo como vemos hoje passou por uma série de etapas, começando em 1890 com a industrialização pela possibilidade de crédito fácil, a propaganda, a construção do sonho americano até chegar a era do consumismo em 1990.

Em 2010 vimos uma nova tendência criar força, a economia compartilhada. Agora não é mais preciso comprar para aproveitar, ideias como Uber e Airbnb são casos de sucesso dentro dessa nova maneira de consumir. O Airbnb nasceu da crise, as pessoas não tinham mais dinheiro para pagar hotéis caros mas queriam continuam viajando. A plataforma possibilita alugar um apartamento de sua preferência, por um preço mais baixo e ainda oferece uma experiência local no destino escolhido. O viajante consegue poupar, e o dono do imóvel tem uma força extra no rendimento daquele mês. No final das contas, todo mundo ganha!

Cidade humanizada

A saída do homem do meio rural para o urbano resultou nas cidades, selvas de pedra caóticas e superpopulosas. Mas até os grandes centros já começam a ensaiar um caminho para a mudança. Com início na Europa, o Slow Cities, ajuda a repensar a organização das cidades incentivando as pessoas a interagirem mais ao ar livre e umas com as outras. Um exemplo?  É só lembrar do Highline Park em Nova York e Amsterdam e seu amor por ciclovias. Duas maneiras de fazer com que as pessoas saiam de casa e aproveitem o lugar onde vivem.

HIGHLINE PARK

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O Highline Park em Nova York é uma ótima opção para quem quer desacelerar na cidade que nunca dorme. Construído em cima de uma linha de trem abandonada o parque cobre mais de dez quadras. Ao longo de seu percurso, além dos jardins e bancos de leitura instalados, artistas fazem intervenções nos prédios, transformando o local em uma galeria a céu aberto.

AMSTERDAM

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Superpopulosa, a Holanda teve que pensar em um plano B para evitar um caos no transporte. Sua capital, Amsterdam, é um dos principais exemplos de como concentrar idas e vindas por meio de
bicicletas. A adesão ao movimento é tanta que já chega a ser difícil encontrar um local disponível para estacionar a bike. Ir para o trabalho sem buzina, trânsito e stress, já pensou?

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