Quem fez minhas roupas? Fashion Revolution promove ações e questionamentos por todo o Brasil

Dia 24 de abril de 2013 foi um grande marco para a moda. Não por conta de um lançamento ou novo desfile, mas sim pelo desabamento do edifício Rana Plaza, que produzia roupas para grandes marcas de fast-fashion, em Dhaka (Bangladesh), matando mais de 1000 pessoas e deixando outras 2500 feridas. O acontecimento, marcado como um dos maiores desastres industriais da história, mostrou o lado obscuro da moda e como seus processos podem ser cruéis e exploratórios.

Diante disso surgiu o Fashion Revolution, um movimento global que luta por mais transparência, justiça e ética na cadeia da moda. Encabeçado por ativistas, trabalhadores(as), estudantes e pessoas engajadas, a frase “quem fez minhas roupas” é o norte da organização. Presente em mais de 100 países, a atuação é através da educação, mobilização e conscientização, com o objetivo de canalizar a força da moda para o bem.

 

A importância desta revolução no Brasil

O Brasil é um grande polo da moda mundial. Conforme a ABIT, o país é o quinto maior produtor têxtil do mundo, onde 85% das peças consumidas no Brasil são confeccionadas em território nacional. Isso também nos leva a uma realidade de exploração, onde várias confecções brasileiras já foram flagradas com trabalho infantil e análogo ao escravo.
Felizmente e em contraponto, o Fashion Revolution tem bastante força por aqui. Desde 2014, quando foi realizada o primeiro Fashion Revolution Day, o país integra a programação mundial. Em 2017, houveram 225 eventos em mais de 30 cidades para promover essa mudança. Já em 2018, a atuação foi ainda mais intensa, com representantes locais em mais de 50 cidades e 40 embaixadores(as) estudantis. “O que achei mais pertinente da edição deste ano foi o aprofundamento e difusão dos questionamentos do Fashion Revolution; a discussão estava num patamar acima, com mais propostas de soluções e não apenas explicações de conceitos. Dessa forma, as pessoas estão entendendo melhor qual a real bandeira do movimento e conseguindo rever seus hábitos”, conta Mariana Bonfanti, do núcleo nacional.
Em São Paulo a programação foi extensa, com uma agenda cheia de talks, oficinas e debates com temas variados, como economia circular, gestão de resíduos, comunicação e consumo consciente. A abertura da semana foi na OAB da capital paulista, unindo o direito da moda com o Fashion Revolution. Os eventos do dia 28 e 29 de abril, na Unibes Cultural, tiveram a circulação de aproximadamente mil pessoas, com a presença de profissionais referência como Lilian Pacce, Flavia Aranha, Deputado Carlos Bezerra Junior, Dudu Bertolini, André Carvalhal e Fernanda Paes Leme. Além disso, ocorreu o pré-lançamento da edição brasileira do Índice de Transparência da Moda e a exibição do documentário River Blue.

Na plataforma online, também houveram muitos impactos positivos. As visitas no perfil cresceram exponencialmente e o número de seguidores aumentou em 8 mil. As ações de questionar as marcas também foi intensa; as postagens com a hashtag oficicial do movimento “quemfezminhasroupas” chegaram a 20 mil, e a hashtag “#eufizsuasroupas”, a 3 mil.

 

A revolução através da educação

Outro destaque da semana foi o primeiro Fashion Revolution Forum, evento que reuniu pesquisadores, estudantes, professores(as) e profissionais da área para fomentar a pesquisa e o desenvolvimento sustentável na moda. O Forum segmentou os temas em modelo: repensando os negócios de moda; mentalidade: mudando o jeito que pensamos a moda; e material: questões relacionadas às pessoas e o planeta.
Houveram mais de 200 inscrições, o que resultou em 23 trabalhos apresentados para aproximadamente 200 ouvintes. O comitê organizador do Fórum foi composto por Cariane Camargo e Eloisa Artuso, com o apoio da IBMODA, Senac, IED São Paulo e Belas Artes.
O evento reforçou a atuação do Fashion Revolution pelo viés educacional; desde 2014 acontece um diálogo efetivo entre a academia e o movimento, onde os estudantes embaixadores são motivados a criar uma bandeira de retalhos com o questionamento “#quemfezminhasroupas?” e fomentar o debate no meio acadêmico.

 

As mulheres por trás da revolução

Num mundo onde as mulheres compõem 85% da força de trabalho da indústria da moda, mas ocupam menos que 25% de cargos altos em empresas do setor, são várias as mulheres que se levantam para uma mudança deste cenário.
No Fashion Revolution Brasil, grande parte da equipe nacional é composta por mulheres, sendo as representantes locais também maioria. No Forum a realidade não foi diferente. Eloisa Artuso, coordenadora educacional, relata que apenas 7% dos trabalhos inscritos eram de homens. O comitê científico e organizador também era todo composto por mulheres.
Isto não ocorre por exigência ou segregação. “O Fashion Revolution tem um número muito maior de mulheres trabalhando, o que é reflexo da cadeia produtiva da moda, onde a maioria são mulheres – principalmente chão de fábrica e mão de obra. A nossa ocupação mostra como é necessária uma mudança”, conta Mariana Bonfanti, representante de São Paulo.

 

Qual o futuro da moda?

A pergunta “qual o futuro da moda?” norteou um dos principais debates da semana do Fashion Revolution dia 28, em São Paulo. Diante das pluralidades de iniciativas, visões e contextos, torna-se difícil responder de forma concreta este questionamento. Contudo, é crucial que o façamos, pois é urgente a construção de um sistema de moda sustentável, justo, sem exploração ou desigualdades. Tais mudanças perpassam a descentralização, criatividade e transformações comportamentais, no modo de produzir e pensar sistemicamente.
O Fashion Revolution tem um papel importante nesta concretização. Conectando a cadeia da moda e celebrando seus envolvidos (desde indústria, academia e cidadãos), a organização mobiliza ações e conscientiza as pessoas para transformar a moda numa potência para o bem. Afinal, no horizonte que avistamos, não haverá dor ou exploração – seja ambiental ou humana, para produzir uma peça de roupa sequer.

Acompanhe o movimento:

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Fontes:

Abit
Modefica
Fashion Revolution

 

Matéria escrita por Bárbara Poerner Pereira, da Equipe de Comunicação do Fashion Revolution Brasil

 

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