Quando os movimentos de rua influenciam a moda

É cada vez mais frequentemente a inversão das leituras de tendências e isso tem muito a dizer sobre os novos consumidores. Ao invés do processo tradicional de​trickle-down , onde as grandes marcas ditam as tendências, a moda passa a buscar suas inspirações nas ruas, através do que chamamos de processo de ​bubble-up. O streetstyle é uma excelente exemplo disso que, como o próprio nome já diz, estilo de rua, se tornou umas das grandes referências​ ​contemporâneas​ ​e​ ​um​ ​dos​ ​grandes​ ​diferenciais​ ​da​ ​moda​ ​na​ ​atualidade.

O primeiro grande movimento das ruas foi o ​punk, que surgiu em meados dos anos 70, e era marcado por jovens rebeldes e fora dos padrões que questionavam a sociedade em que viviam.De início o estilo era considerado “esquisito” pela maioria, mas aos poucos se fez presente na moda, gerando certa contradição, já que os punks originalmente eram contra o sistema de consumo americano. Em seguida vieram os movimentos dos ​skaters nos anos 80, influenciado pela rebeldia dos ​punks, e na década seguinte com a ascensão do ​rock alternativo​ ​vieram​ ​os​ ​​grunges.

Atualmente o ​streetstyle invadiu até o mercado de luxo, onde temos sem dúvidas o maior exemplo na Moschino. O diretor criativo da marca, Jeremy Scott traz elementos urbanos em suas coleções, criando um visual colorido e excêntrico. No cenário nacional, um dos maiores ícones atuais é a À La Garçonne, dirigida por Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza. A dupla traz um visual auto intitulado de ​streetwear couture, com referências urbanas, com tecidos pesados como jeans e sarja misturados à delicadeza do ​handmade, criando​ ​uma​ ​identidade​ ​única​ ​para​ ​a​ ​label.

A Lab Fantasma criada pelos irmãos Emicida e Fióti, também busca todas as suas referências nas ruas, refletindo a cultura do​rap nacional em suas coleções, tanto nas peças quanto no conceito escolhido. O próprio​ rapper conta que a marca é uma grande mistura de influências, mas sempre valorizando suas origens, principalmente em seu ​casting diverso, sempre​ ​cheio​ ​de​ ​representatividade​ ​para​ ​seu​ ​público.

Muitas outras grandes marcas surgiram das influências das ruas, como é o caso da Osklen, que criou um lifestyle brasileiro, unindo sofisticação e o despojamento urbano, sempre combinando o orgânico e da terra com o tecnológico.A osklen surgiu para atender o público com o estilo esportivo das ruas, e atualmente é uma das marcas nacionais mais bem vistas, conquistando inclusive o mercado global, fazendo que o público internacional voltasse os olhos​ ​para​ ​o​ ​Brasil.

Também do universo do skate, podemos destacar a Black Media, uma plataforma online para informações, não só sobre o esporte, mas todo o lifestyle ao redor do mesmo.Com o sucesso da plataforma, criou-se a black media shop, para atender o público que vive o mesmo estilo de vida da marca, passando assim a se vestir também como uma tribo. Atualmente o site conta com peças que vão desde camisetas, até toucas e meias, vestindo o​ ​consumidor​ ​Black​ ​Media​ ​da​ ​cabeça​ ​aos​ ​pés.

Nós realizamos uma entrevista com a equipe da Black Media sobre esse assunto, que você confere​ ​na​ ​íntegra:
Revista Catarina: Como surgiu a ideia de criar a Black Media, e o que você achaque trouxe​ ​de​ ​diferente​ ​desde​ ​o​ ​início​ ​do​ ​projeto​ ​que​ ​fez​ ​ele​ ​se​ ​tornar​ ​o​ ​que​ ​é​ ​hoje?

Black Media: A ideia da Black Media veio da falta de uma mídia que nos agradasse totalmente, que a gente tivesse vontade de acompanhar. Nós três (eu, Mug e Caetano) trabalhávamos em uma revista de skate e nos sentíamos muito presos lá. Acho que a principal diferença da Black Media é a forma como tratamos o skate, com bom humor, de forma leve e sem perder a credibilidade, sem tirar o foco principal do conteúdo, da informação. Preenchemos um buraco que estava aberto há muito tempo e o público “core” do​ ​skate​ ​aceitou​ ​muito​ ​bem.

R.C.: Há algum tempo atrás ainda havia muita discriminação como skate e com todo o estilo de vida ao redor disso. Como você vê que as mídias encaram esse esportee lifestyle atualmente? O que você considera ter sido o principal agente para essa mudança?

Black Media: ​Na verdade, quem está de fora do skate só gosta mesmo é de pegar as “partes boas” do nosso mundo. A sensação de liberdade, de desprendimento, o vento na cara, coisas que a sociedade comum não tem no dia-a-dia. Todo mundo acha bonito o skate na propaganda de TV, mas quando estamos andando na frente do seu prédio ainda somos chutados pra longe como sempre fomos (mas sempre voltamos). A discriminação ainda existe; diminuiu um pouco, mas ainda existe e é grande. O principal agente foi a percepção de que o lifestyle do skatista é muito comercializável. Viagens, atividade física, colocar o skate como esporte, o tipo de coisa que o “cara do escritório” não tem no dia-a-dia.

R.C.: O skate é um dos muitos movimentos comportamentais de rua que vieram pra moda, hoje em dia sendo o lifestyle principal de grandes marcas com essa pegada mais sport e street. Qual a sua visão sobre isso, analisando a importância dessa adesão​ ​do​ ​movimento?

Black Media: ​Tem a ver com a resposta anterior também. Não consigo responder isso sem escrever um “quase-livro”, então é mais ou menos a mesma coisa: a moda pega o que ela gosta, usa, e o que não gosta descarta. Isso não acontece só no skate, mas em muitas outras culturas, de rua ou não. Mas o skate está cada vez mais em destaque, com certeza. Ele​ ​sempre​ ​ditou​ ​muita​ ​coisa​ ​na​ ​moda,​ ​mas​ ​agora​ ​está​ ​maior​ ​do​ ​que​ ​nunca​ ​nesse​ ​aspecto.

R.C.: Como a Black Media tenta manter a identidade do skate, que veio das ruas, dentro​ ​de​ ​uma​ ​coleção​ ​de​ ​moda? Black Media: ​Nós temos a nossa marca de roupas, e as coleções, que ainda são bem pequenas, são sempre decididas em alguma reunião improvisada, dando risada, tomando alguma coisa. Isso se reflete nas ideias, estampas, cores, etc. Sai tudo de um jeito que a gente realmente gosta, usa e acha que os outros skatistas também vão gostar e usar. Ficando​ ​dentro​ ​disso,​ ​a​ ​identidade​ ​está​ ​mantida​ ​sem​ ​esforço.​ ​É​ ​tudo​ ​bem​ ​natural.

Toda essa valorização da cultura de rua, e apropriação da mesma para a moda, nada mais é do que as marcas ouvindo seu público. O consumidor atual não quer mais copiar uma tendência só porque ela estava na passarela, ele deseja identidade. Ou melhor: a expressão da SUA identidade. E nada melhor para as marcas do que buscar isso observando seu próprio cliente, e produzindo pensando no lifestyle do mesmo, trazendo assim​ ​cada​ ​vez​ ​mais​ ​um​ ​DNA​ ​forte,​ ​conquistando​ ​a​ ​atenção​ ​do​ ​seu​ ​público​ ​alvo.

Vale relembrar que Felipe Minozzi, um dos idealizadores do projeto Black Media, esteve presente nesse último domingo comandando um bate papo sobre a influência do skate na mídia, para a Semana Balaclava. Outros nomes como Grazi Oliveira, Murilo Romão e Kamau​ ​também​ ​participaram​ ​da​ ​conversa.

Fique por dentro de todas as novidades!

Cadastre seu e-mail e receba conteúdos exclusivos da Revista Catarina.

Seu endereço de e-mail*