por patrícia lima | @patilima

Você viu o desfile da Prada ontem? Boa parte dos profissionais de moda estavam conectados (como sempre) para ver qual seria a proposta da marca, porque é sem dúvida, uma das maiores influências do nosso mercado de tendências. Caso você não tenha visto ainda, dá uma olhada nas três colagens acima para perceber a linha criativa do desfile… Viu? Então vamos lá. Para seguir uma linha de raciocino, vamos voltar um pouco antes da passarela, vamos pensar no momento em que estamos vivendo. Ok? Quantas vezes você ouviu falar em consumo consciente e sustentabilidade ultimamente? Muitas, não é mesmo? Mas quando vemos mais uma temporada acontecendo, onde essa preocupação vai parar? O que chama atenção é a dificuldade de adaptação que a moda enfrenta. E mais, uma enorme dificuldade de perceber que a imagem apenas, não é mais suficiente, precisamos ir além. Miuccia Prada é um ótimo exemplo desse desafio de realizar o novo, mas tentando manter o velho hábito.

O clube fechado, das grandes marcas da indústria da moda, ainda não entendeu que há um caminho sem volta no comportamento de consumo. Talvez eles até já tenham percebido, mas ainda não sabem como lidar com esse novo momento, que é o oposto de tudo o que temos nesse momento. A busca pelo significado real de tudo que nos cerca, do consumo consciente vem ganhando importância no cotidiano mundial. O movimento slow bate na porta de quem reflete sobre o futuro da humanidade e passa a acreditar no seu poder de escolha (para bem ou não) através de tudo que consome. Ontem tivemos o desfile da Prada, em Milão, durante a temporada de moda masculina e a mensagem da coleção parece ser clara. Só parece. O discurso de Miuccia Prada não condiz com o formato do business em que a marca atua. Ao olhar rapidamente para o desfile, as informações superficiais são de que tons terrosos e a atmosfera setentista são o norte das tendências propostas para a próxima temporada. Mas refletindo sobre as peças e conectando a informação passada aos jornalistas após o desfile, mostra que Miuccia tem a percepção dessa busca pelo simple e real, afinal ela propõe isso ao longo do desfile apresentado. Vimos uma coleção quase simples, sem exageros no shape, uma revisitação no estilo dos anos setenta, pontuados com acessórios fun. Mas vejam bem, na resenha de cobertura do jornalista Luch Leitch, há afirmações de Miuccia como: “Minhas inspirações são tantas e tão complexas que é difícil resumir. Mas eu diria que o meu sentimento foi de sair do grande para o pequeno (…) e seguir para o caminho oposto. Mais humano, mais simples, mais real. O desejo pela realidade, humanidade e simplicidade.” E há outra citação que completa a ideia de um novo olhar, “nós todos fomos muito longe, há muito para seguir, muito para fazer, sempre mais, mais e mais. De alguma maneira, perdemos a nossa natureza da normalidade.”
Sim, ela chegou ao ponto fundamental de todo o discurso e questionamento mais atual sobre o papel da moda nesse contexto. Há sempre mais. Sempre querem nos fazer acelerar, perdendo a conexão com o simples e real. Porém, o engano está em acreditar que a imagem criada de simplicidade mudará algo. Vestir modelos de maneira simples, não traz simplicidade que ela cita. A mudança é bem mais profunda, passa pela reinvenção do processo de varejo, questiona os lançamentos a cada seis meses, onde as semanas de moda tem como objetivo trazer novidades e prever (e criar!) novos desejos de consumo. Miuccia tentou ser simples, mas o que conseguiu – mais uma vez – foi criar uma série de elementos a serem desejados e copiados pelo mundo todo. Nisso ela é mestre.

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