O que é verdadeiro na moda brasileira?

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Por Patrícia Lima

O cenário da moda nacional anda, no mínimo, esquisito. Mas ninguém para para refletir, não dá tempo, são liquidações e lançamentos desenfreados. Tentativas de levantar o varejo, que não anda muito bem nos últimos tempos, principalmente quando o aspecto climático não condiz com os produtos que estão nas lojas. Mas não pense, apenas entre no circuito frenético e siga sem olhar para trás. Lá vem mais uma semana de moda, muita mídia e pouca venda.

As redes sociais trazem uma enxurrada de fotos da SPFW, todas querem mostrar o look do dia, todos querem ver esses looks postados e poucos querem entender o que quer dizer realmente aquilo que foi apresentado na passarela. O que vale é o maior número de likes, isso sim é valorizado pelo mercado. Muitas vezes, as mesmas marcas que querem vender criações autorais, são as mesmas que incentivam uma primeira fila repleta de bloggers. Nada mais justo, são elas que apresentam um novo movimento no mercado (nem tão novo assim, mas na falta de novidades, vale assumir a aplicação do termo nesse texto). Vestem, postam… pronto, vendeu! É disso que o empresário precisa, as marcas buscam respostas comerciais imediatas, por isso está a cada temporada mais difícil equilibrar os dois universos: criativo X comercial.

Estilistas criam coleções lindas – afinal, talento não falta nesse país – mesmo que isso venha com uma enorme carga de “inspiração” internacional, mas quantos deles conseguem levar até as araras pelo menos 50% da coleção proposta em seu lançamento? De que adianta tanto esforço e investimento, se a realidade de consumo não condiz com a imagem apresentada para um público ainda pequeno comparado ao enorme país que temos para atingir? Se a sua resposta é construção de imagem, temos uma divergência entre nós. A falta de inovação nas marcas não está relacionada apenas ao produto, pelo contrário, a comunicação de moda nacional não tem sido muito interessante. Para ser sincera, na minha opinião, o tédio se instalou nas campanhas de moda. Escrevo isso porque trabalho com comunicação de moda, consultoria de produto e esse texto não é uma crítica, é apenas uma constatação do mercado nesse momento. Eu também faço parte desse mercado de moda que tem sido pressionado por uma cenário sócio-econômico nada animador.

Então, de quem é a culpa desse sistema torto?

Culpa? Eu disse culpa? Desculpa, me equivoquei, porque não há culpados. Há sim uma cultura de consumo no Brasil, que é mais forte que a criação, muito mais incisiva do que a busca pelo autoral. A valorização do NOVO fica retida nos jovens, que infelizmente não possuem o poder de compra. Mas nem tudo está perdido, sempre surgem possíveis cases de sucesso, basta aguardar para ver o retorno comercial. Como foi o caso da coleção da Animale – apresentada hoje  pelas mãos do talentoso Vitorino Campos – porque ali vemos uma possibilidade quase ideal de proposta de consumo para o seu público. Consumidoras que conhecem e admiram marcas como Chloé e Céline, agora podem encontrar uma versão com identidade e assinatura nacional com o mesmo perfil de criação. Ou ainda, as criações carregadas, mas suavizadas pelo o olhar de Patricia Bonaldi, que mostra o valor agregado do seu produto através do marketing de relacionamento e da matéria-prima.

Lógico, que em um mundo ideal, teríamos mais Ronaldos Fraga e Vitorinos livres para criar para um país de consumidoras que não se importassem tanto com o corpo e valorizassem a criação nacional acima de qualquer cópia internacional. Porém, ainda devemos ver a realidade de desafios que ainda vão além do poder financeiro, como o corpo da mulher brasileira, com curvas, baixa estatura e muitas vezes turbinado por malhação. Ou ainda o clima tropical que insiste em tirar o glamour das coleções de inverno. Mas temos sempre algumas luzes no final do túnel, que incentivam e fazem acreditar que é possível nadar contra a maré no fortalecimento da moda nacional. Entre as minhas luzes inspiradoras estão todos os colaboradores incríveis que produzem editoriais de moda e desenvolvem a Catarina comigo. Profissionais do mercado de moda que sonham e defendem seu olhar criativo, sem pensar em todos os desafios da nossa realidade.

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