LAM: Nos pilares do movimento Slow

Essa semana tivemos o prazer do conhecer o trabalho da LAM, marca mineira lançada em outubro de 2017, com foco em roupas femininas voltada para o segmento de moda festa e casual, baseia-se nos pilares do movimento slow para desenvolver peças únicas, autorais e com propósito, elaboradas principalmente através do reaproveitamento de resíduos têxteis, retalhos, processo de upcycling e beneficiamentos artesanais.

Por meio de pequenas coleções lançadas ocasionalmente e modelos confeccionados sob medida, os principais objetivos da idealizadora da marca Laryssa Martins, são produzir moda com responsabilidade, incentivar o ofício artesanal e disseminar o consumo consciente.

A primeira coleção da LAM, denominada Retalho[me] foi inspirada em conceitos subjetivos e apresenta uma fragrância romantizada apesar de longe de uma estética idealizada. Além do crochê produzido por artesãos locais, do bordado com aparas de linho e dos tecidos e rendas tingidos e pintados á mão pela própria estilista, a coleção também está impregnada de recortes, assimetrias, sobreposições e misturas de texturas e padronagens.

E para quem procura algo ainda mais exclusivo, a marca oferece duas soluções para a confecção de peças sob medida que possibilitam a participação das clientes na criação do modelo e a transformação de roupas que elas já tenham e que possuam algum valor afetivo em outras novas e inéditas, chamadas Cocrie e Reuse, respectivamente.

Todas as peças de pronta entrega e as soluções para confecção sob medida estão á venda e disponíveis no e-commerce da marca com procedimentos bem simples, eficientes e com entrega realizada em todo o território nacional. Atendimento pessoal e com hora marcada, também pode ser programado no ap/atelier da LAM em Belo Horizonte no bairro Gutierrez.

Conversamos um pouco com a Larrysa e conhecemos um pouco mais do universo da marca que tem tudo para ser um sucesso.

 

  1. .O que provocou seu interesse pela criação de uma marca autoral e diferenciada ?

 

Desde o inicio da minha formação em moda, algumas questões sobre a indústria e o funcionamento da coisa toda me incomoda. Depois que entrei para o mercado de trabalho, atuando como estilista, o desconforto só aumentou, principalmente no que se refere à “homogeneidade criativa” e forma com que a moda é produzida e consumida atualmente.

Hoje, infelizmente, tudo gira em torno de quem ganha mais e quem gasta menos e ninguém pensa nas conseqüências prejudiciais geradas não só ao meio ambiente, mas ao desenvolvimento do nosso país como um todo.

É claro que não recebemos o devido incentivo para agir de forma diferente, mas se nenhuma atitude for tomada, vamos acabar com a moda, toda sua cadeia produtiva e para piorar, vamos destruir com o planeta.

E por esses e outros motivos, resolvi fazer a minha parte através da LAM, produzindo moda autoral, com identidade e de forma consciente e responsável.

 

  1. Como seu trabalho evoluiu desde que você começou sua própria marca? E qual a reação do público a esse tipo de negócio?

 

Apesar da marca ainda ser recente e já nascer com objetivos bem traçados e relacionados aos ideais dos quais acredito, trabalho duro e constantemente para tornar o discurso realidade. Até porque falar e ser otimista é fácil, o difícil é fazer, ainda mais no Brasil. Então, além dos conceitos que a marca já propõe, de originalidade e produção de moda consciente e responsável, que hoje giram basicamente em torno da artesania, reaproveitamento e processo de upcycling, pretendo em breve implementar outras práticas que farão ainda mais diferença. Incluir tecidos com matéria prima 100% reciclada na confecção e pigmentos naturais no processo de tingimento são dois bons exemplos do que vem por aí.

Mas apesar de manter-me convicta aos meus propósitos enquanto marca, até que a LAM virasse realidade, tive receio de que o consumidor não comprasse a idéia. O mercado de moda festa ainda é muito tradicional, exigente e por vezes bastante antiquado; o produto normalmente já não é barato e a pequena produção, de forma responsável, o torna ainda mais caro. Fora que o consumidor desse segmento, ainda não está familiarizado ao formato que proponho, além de praticamente não existir nenhum incentivo efetivo, governamental ou privado, para o desenvolvimento dos novos e pequenos nessa área.

Enfim, tinha tudo para dar errado. Porém, quando a LAM materializou se, deu para compreender que existe alternativas a moda sustentável que possibilitam relacioná-la a autenticidade e sofisticação. A partir daí, consegui atenção e engajamento. E apesar de ainda não ter superado todos os (muitos) obstáculos, felizmente, só obtive feedbacks positivos.

     3. Como funciona o seu processo de criação uma vez que as peças são únicas, os clientes compartilham suas histórias?

 

Apesar de tudo acontecer de forma bastante “intuitiva”, parte do processo é igual ao da maioria. É realizada uma vasta pesquisa a respeito de um determinado assunto ou tema e sobre previsões macro de tendências, além de procurar me manter informada sobre o que acontece mundo á fora, o que geralmente ajuda na orientação, atualização e proporciona mais profundidade ao que será criado.

O que difere o processo criativo da LAM dos demais, é que preciso criar a partir do que já tenho em mãos, do que me é oferecido e/ou sugerido. É a matéria prima que define a coleção e não o contrário. Essa peculiaridade limita a quantidade, forma e tamanho de cada peça a ser desenvolvida, além de normalmente tratar-se de uma miscelânea de cores, texturas e padrões, que exige um olhar apurado e adaptações para encaixarem-se uns aos outros e fazer sentido. E esse é um dos principais motivos pelo qual produzo apenas peças únicas. Por mais que eu queira, nunca haverá quantidade suficiente do mesmo material para reproduzir qualquer modelo, nem conseguirei chegar ao exato tom do tingimento e muito menos replicar um ponto de costura ou crochê manual.

E é também, toda essa especificidade que torna nossos produtos singulares e faz da LAM uma marca diferenciada. Agora, quanto à intervenção das clientes na criação, faz com que as peças confeccionadas através do Cocrie ou Reuse, sejam ainda mais extraordinárias. Essa participação mesmo que pequena, aumenta o valor e o vinculo do consumidor com a roupa (e conseqüentemente sua vida útil), ou porque ela fez parte do processo, ou porque o produto deriva de outro que já carrega uma história. E para manter o conceito da marca e a identidade da coleção vigente, existem regras, simples, mas que nos ajudam a não perder o foco.

 

  1. O que é moda pra você? Qual a importância dela na vida das pessoas e na sociedade?

 

Todo meu interesse pela moda começou quando a reconheci como ferramenta de diferenciação, que ressalta, estimula e permite externar identidade e personalidade, características que nos tornam únicos. Mas infelizmente, a indústria fast-fashion e todo esse imediatismo estão destruindo-a, gerando apenas mais do igual e nos uniformizando. Em contrapartida, se despertarmos nossa consciência a tempo, estimularmos e trabalharmos a moda de forma correta, ela se tornará uma das maiores agentes transformadoras, não só do ponto de vista ecológico, mas economicamente, socialmente e culturalmente falando. A moda é extremamente influenciadora, sua indústria gera bilhões em faturamento e milhões de empregos só no Brasil, além de fortalecer relações e nos impulsionar. Porém, para impactar de forma positiva mais do que negativa, precisa ser reestruturada com urgência, se aperfeiçoar e ressignificar valores em todos os níveis da cadeia.

 

  1. Qual a sua visão sobre o futuro da moda com tantas mudanças que vem acontecendo no mundo fashion nos últimos tempos?

 

Não é de hoje que inúmeros especialistas prevêem que se continuarmos do jeito que estamos à moda como conhecemos hoje, morrerá. E na minha percepção, isso é a mais pura verdade. Porém, acredito que o mercado já esta sendo obrigado a se redirecionar e se posicionar de forma mais efetiva, original e responsável. Existe um movimento ainda longe do ideal, mas em erupção e prestes a explodir. Antigas empresas já despertaram e estão mudando seus hábitos e as recém chegadas como a LAM, já nascem com um novo olhar sobre tudo. O consumidor também já não se aliena e não aceita facilmente o que lhe é imposto; ele ficou mais exigente, melhor informado e mais consciente. A luzinha ascendeu e os questionamentos e cobranças se intensificaram. E realmente só sobrevirá quem acompanhar a evolução e produzir com respeito e responsabilidade, de forma autentica e inovadora.

 

  1. Como você descreveria sua marca?

 

A LAM nada mais é do que um laboratório experimental e criativo que visa elaborar produtos singulares, com significado e propósito; que prática e dissemina a moda autoral, original e responsável, incentivando e propagando o consumo consciente. Modéstia a parte, gosto de considerá-la como uma ideologia, um veículo semeador de mudança.

 

  1. Deixe um recado para os leitores da revista.

 

Como André Carvalhal já citou, “perguntas sem respostas revelam o quanto somos inconscientes, e isso livra um pouco a nossa responsabilidade”. Mas os meios já estão a disposição e não dá mais para se abster, fingir alienação e seguir apenas os velhos preceitos capitalistas. Toda transformação começa com gestos simples, porém imediatos e agora é à hora de tomar uma atitude.

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