JOÃO PIMENTA: UM NOVO MOMENTO

Por Luiza Machado e Priscila Andrade

Um dos nomes mais respeitados da moda masculina brasileira, João Pimenta, é um sopro de inovação em meio a tantos outros. Ele dispensa a opção de vendas online, por gostar de ter um contato mais próximo com seus consumidores e bate na tecla do “menos é mais” – acreditando que a larga escala tira a exclusividade do que é produzido. Em meio as dificuldades geradas pela crise que teve grande impacto no mercado da moda, João revela quais são suas expectativas para a marca e faz sua aposta do que vai estar em alta nos próximos tempos.

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Como tudo começou

Quando eu era jovem, em Ribeirão Preto, entrei em um projeto da prefeitura e me colocaram para trabalhar nas Casas Pernambucanas, lá que eu tive meu primeiro contato com tecido e que me apaixonei pelas roupas. Fui descobrindo a comunicação que a moda é capaz de fazer, como ela é importante para as pessoas. Acredito mais na linguagem do que no produto, quando a gente consegue falar pela roupa.

Quais os principais desafios?

Todos! Não temos nenhum tipo de apoio, nem para quem tem marca de moda, nem pra quem tem empresa em geral. Eu pago muito de imposto, é mais do que eu consigo tirar como lucro.

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O efeito da crise na moda

Agora estamos super inspirados para criar e as pessoas estão sem poder de compra. Até o criativo é prejudicado por que as vezes ao invés de eu criar uma peça nova eu faço algo que já deu certo. Mesmo fazendo peças sob medida, não cobro preços muito altos nas minhas roupas. Mas quando faço um bazar ou algo assim é quando as pessoas se sentem confortáveis para vir, as pessoas estão se segurando!
Mas até mesmo a gente faz isso, né? Na minha vida pessoal, na minha empresa: é o necessário, somente o necessário! Não acredito que o país esteja mal, nós estamos trabalhando, produzindo, continuando com tudo, acredita que seja devido ao sério problema político.

O Brasil para os novos talentos

O Brasil tem muita capacidade criativa mas não tem objetivo nenhum. Apostar no outro não é do perfil brasileiro. Ensinar, passar informação, abrir espaço…é difícil para esses meninos novos. A indústria deveria ter laboratórios para eles saírem da faculdade e continuarem criando. Existem muitas faculdades de moda, mas até que ponto elas realmente preparam os alunos?
São formados vários estilistas mas nenhuma costureira.
Existe muito deslumbramento em ser estilista. É difícil trabalhar com uma marca, desenvolver ela. A imprensa também não valoriza a criação nacional. Acho que é o país que mais tem capacidade criativa, mas falta espaço.

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Sócio investidor

Tenho vontade mas conheço muitas histórias de estilistas que foram para esse caminho e nenhuma termina em final feliz. Eu quero, até por que não sou empreendedor, ter alguém nessa área seria muito bom para a marca. Por outro lado, gosto muito da minha liberdade criativa não sei como funcionaria algo assim.

Próximos passos

Apesar da crise, é um momento muito legal para a marca. Venho maturando no meu trabalho, não fiz faculdade de moda, não vim de cursos e essas coisas. O que eu sei eu aprendi no dia a dia.
Estamos estudando a questão da alfaiataria, que já vínhamos fazendo – e eu amo! – mas agora realmente entendemos cada etapa do processo. Acredito que a alfaiataria vai ter um momento feliz daqui a pouco e estamos nos preparando para isso, contratando mais alfaiates, mais gente pra fazer esse trabalho manual que é incrível.
Como estilista também me sinto mais seguro em questão de auto estima e essa segurança, e o desejo de qualidade, está garantindo nosso futuro.

See now Buy Now

Com as novas formas de comunicar tudo ficou imediato. A moda ficou fora de moda e acredito muito nessa tendência See Now Buy Now, me parece ser a forma correta. Além disso, as fast fashions perdem o tempo de copiar, é vantajoso para o estilista.
Também acredito que é difícil trabalhar com uma coleção de inverno em pleno verão, que é o que vem acontecendo até agora na moda, tudo é feito com seis meses de antecedência. Criar o inverno no inverno é muito mais inspirador.
Outra coisa importante de destacar é que a produção também deve diminuir, já que não vai existir tempo necessário para produzir muito, e isso é bom por que o mundo já tem roupas demais! A larga escala tira a exclusividade da roupa.

E-commerce

Tenho clientes que reclamam não ter loja online. Nossas roupas são feitas sob medida, como se fazia antigamente, tem todo um envolvimento que precisa ser presencial. Gosto muito quando o cliente vem até a gente, possibilita uma troca muito grande. É outra experiência.

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Genderless

As marcas sofrem com falta de informação, acham que é só vestir as mesmas coisas nos dois. O que eu acredito é que nesse modelo é preciso repensar o que a gente esta fazendo. É preciso limpar as roupas, tirar os elementos que sugerem um gênero determinado.
É do guarda-roupa masculino que vai sair esse novo gênero, já que as mulheres se adaptam melhor ao guarda-roupa deles. Aqui eu brinco que fazemos roupa que ficam em ‘lugar nenhum’, nem no feminino nem no masculino.

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