“Inspiração é…” com Mary Arantes

Por Camila Beaumord

 

Foi oportuno que perguntamos para Mary Arantes sobre seu conceito de inspiração pouco após seu desfile, que explorou justamente a relação entre criatividade e loucura. A fundadora da grife de acessórios Mary Design é figura conhecidíssima nos corredores do Minas Trend, não apenas por suas apresentações impactantes, mas pela gentileza e carisma que encantam os visitantes. Mineira, a criadora tem um dom muito especial de conseguir impor os seus ideais em peças que atraem consumidoras de todos os estilos. Mas isso não quer dizer que o processo seja simples.

“[Com este desfile], falei da dor que é criar, que às vezes não é tão fácil assim como a gente imagina,” explicou Mary. “O processo da pressa, do timing, você criar com hora marcada, com pressão. Você gestar isso e você doar isso para o outro depois. Eu sinto um vazio imenso na hora que eu chego em minha sala e não tem mais peça alguma, sabe? Sinto que levaram tudo! É como se tivessem roubado aquilo de mim e eu normalmente fico muito deprimida. Esse é um processo meu, mas acredito que seja semelhante a outros criadores. Falei na passarela sobre isso, em forma de música, de gesto, de imagem, que é o que a gente tem para mostrar.”

Para a beleza do desfile, Mary optou por uma maquiagem que representasse cortes.

Para a beleza do desfile, Mary optou por uma maquiagem que representasse cortes. / Imagem: FOTOSITE

Mary agradece aos convidados ao final da apresentação. / Imagem: FOTOSITE

Mary agradece aos convidados ao final da apresentação. / Imagem: FOTOSITE

Mas como você chegou nesse tema, Mary?

“Eu acho que todo mundo que cria trespassa essa linha muito tênue entre criação e loucura, e o criador volta porque a gente tem consciência. A diferença é que eu acho que o louco vai e fica, entendeu? Mas várias vezes na minha vida eu questionei minha própria sanidade. Porque tem coisas que você não explica na criação, né? Por exemplo, este desfile. Eu não tinha ideia do que propor, pedi ajuda ao meu marido, à minha nora. Aí um dia simplesmente eu sonhei com a coleção. Eu sonhei com o tema. Sonhei com um livro que ganhei na adolescência, chamado ‘Elogio da loucura’, do filósofo Erasmo de Roterdão. E acordei, fui para o computador, escrevi o release da coleção sem ter uma peça pronta. Escrevi como eu queria o desfile, como a modelo iria andar. Eu só posso achar que isso é uma loucura, não é?”

A sua inspiração vem da loucura?

“Não necessariamente. Inspiração para mim é tudo que eu leio, que eu como, que eu cheiro, que eu vivencio. Eu acho que criar, para mim, é traduzir um sentimento em objeto. Hoje tudo tem que ter conteúdo. Ninguém precisa mais de um colar, ninguém precisa mais de um a roupa. A gente precisa de uma história por trás de tudo isso. A gente precisa vivenciar as coisas, experimentar. E através disso, eu quero questionar a loucura das pessoas, a loucura que a gente vive. A pressa, a falta de tempo. E aí quem tem uma marca, tem uma bandeira para levantar para essas questões. Desta vez, levantei para a loucura.”

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