Entrevista: Rochele Gloor

Rochele Weissheimer-Gloor se formou Bacharel em Design de Moda pela FIT (Fashion Institute of Technology), em Nova Iorque e fez especialização em tricot computadorizado na NTU (Nottingham Trent University), na Inglaterra. Em Nova York por 8 anos, ela teve a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes nomes do design mundial.

Retornando a Porto Alegre, de onde ela é natural, começou a concretizar a idéia de desenvolver sua marca autoral. Com o apoio do stylist Leonardo Borniger e do director de casting da Joy Model Management Cléber Machado, em 07 de Julho de 2016 nascia a marca Rochele Gloor.

A marca surgiu com a intenção de oferecer roupas femininas atemporais, focada no caimento e na responsabilidade socioambiental, ao invés de seguir uma tendência, ela traz em seu DNA uma autonomia sob seu estilo, expressando assim a individualidade e beleza natural da mulher que a veste.

A missão da marca Rochele Gloor como empresa, é interpretar uma moda internacional voltada ao mercado brasileiro visando a qualidade, integridade, inovação e conscientização ecológica, aderindo ao contexto global por uma produção mais sustentável. A Rochele acredita na capacidade de otimizar os recursos/matérias para se tornar cada vez mais uma empresa referência em inovação de processos e sustentabilidade.

Notando dificuldade em achar mão de obra e a vontade de trabalhar com reaproveitamento, em Outubro de 2016, Rochele fundou um projeto de inclusão social, o Atelier da Cruz, na Associação Comunitária do Morro da Cruz, com auxílio da gestora de projetos Liliana Velho. O Atelier da Cruz é um projeto que ensina a arte da costura para desenvolvimento de produtos em colaboração com empresas a partir da reutilização de materiais têxteis. Os objetivos principais do projeto é a melhoria da qualidade de vida e a geração de renda para as mulheres da comunidade.

Todos os retalhos de tecido da marca são levados para o atelier onde estes são utilizados tanto em projetos específicos quanto para enchimento de almofadas, dependendo do tamanho do retalho. Cerca de 98% dos retalhos são reciclados. Pensando no meio ambiente, Rochele também começou a desenvolver modelagens zero waste para algumas peças, mas tudo sem perder o design e o caimento diferenciado.

Suas inspirações vêm principalmente de idéias subjetivas, ciências, poesia, movimentos sociais e culturais, assim como de certos períodos artísticos como construtivismo russo, surrealismo e minimalismo. A experimentação através do toque e manipulação do tecido, são fundamentais para o trabalho quase que intuitivo da designer.

Tivemos a oportunidade de conhecer esse trabalho lindo de perto, e batemos um papo super gostoso com a Rochele que nos conta um pouco mais desse projeto abaixo:

 

Revista Catarina: Após anos morando fora do país, de onde veio a vontade de voltar para o Brasil e criar a marca Rochele Gloor?

Rochele Gloor: Na verdade a vontade de criar a marca autoral começou em 2011, enquanto estava em NY. Na época fazia uns vestidos de seda pintados a mão com uma técnica que chamo de dripping, onde a tinta escorre como deseja pela peça mas é guiada pela minha mão, entre outras peças. Fiz um pequeno editorial com um fotógrafo francês que chegou a aparecer na Zero Hora. Mas com a carga horária que tinha entre trabalho e estudo (ainda estava na faculdade) percebi que seria difícil fazer essa produção e gerenciamento a distância. Foi quando no fim de 2015 tive um imprevisto familiar que me fez largar tudo e voltar para o Brasil. Quando decidi ficar por aqui, percebi que esse era o momento certo de começar já que tinha experiência e condições para trazer esse sonho para a realidade.

 

Revista Catarina: Você acredita que essa experiência de trabalhar com grandes nomes da moda, tenha contribuído para a designer que você é hoje?

Rochele Gloor:  Com certeza. Pra começar, NY é um dos grandes centros mundiais da moda e quando você está submerso nesse mundo, você tem experiências e inspirações por todos os lados. Antes de começar a faculdade, comecei a estagiar para uma designer que era bem focada em sustentabilidade e vegetarianismo, quando quase não se falava nisso. No fim do segundo ano, fui contratada na Ralph Rucci, que hoje é a Sies Marjan. Foi a experiência mais incrível que eu tive em termos de trabalho. Era uma marca ready to wear no mais alto luxo do slow fashion, e que também fazia alta costura (no melhor estilo francês haute couture). Eu fazia moulage de vestidos de festa diferenciados onde alguns tinham entre 30 a 50 peças no molde que eram costurados meticulosamente parte na máquina e parte a mão com tecidos que nem se encontra aqui, como cetim duchese (de seda) e cashmere dupla face. E tudo feito no nosso atelier no coração do Soho.

Após tive a honra de trabalhar na Oscar de la Renta, enquanto o estilista ainda era vivo. Trabalhava com o diretor de malharia e junto criamos malhas com fios japoneses e italiano e lembro que utilizamos o azul bic para a coleção Resort que após alguns anos virou popular. A preparação para o desfile sempre era uma agitação com o alfaiate italiano chefe do atelier gritando com todos, a presença da, que era na época, a super stylist Natasha Royt, Sarah Jessica Parker e Taylor Swift provando seus vestidos com o Sr. Oscar para o MET Gala,… mas a melhor parte foi ver Anna Wintour escolhendo o vestido de gala de tulle com bolinha para a top model Karlie Kloss fechar o desfile, bem Diabo veste Prada. Na Calvin Klein Collection trabalhei como designer de malhas no pequeno time de design do brasileiro Francisco Costa com profissionais excelentes onde todos colaboraram para que o conceito subjetivo da coleção tomasse vida com grande atenção nos detalhes.

Trabalhar com minimalismo é uma arte e fazê-lo com luxo é um desafio técnico. Sempre tinha pouquíssimas horas pra criar várias opções de bordado, tipos de acabamentos tanto interno quanto de golas e mangas e soluções mirabolantes para desenvolver as peças…intenso. Um dos meus vestido fez parte do editorial de verão ’15. Imaginem o prazer em abrir a Vogue ou a W magazine e ver seu trabalho lá! Quando se trabalha em NY é impossível não citar nomes, na verdade é necessário. Vivenciei que coisas lindas acontecem quando os top fotógrafos, modelos, designers, stylists, estão em sintonia com a criação dessas.

Trabalhei para poucos outros lugares mas esses grandes designers com certeza influenciaram na artista e profissional que sou hoje seja pela estética mais minimalista e atemporal, ou no modo como a modelagem das minhas peças é feita, ou pela qualidade que quero oferecer. Tenho meu próprio desenho de ombro e cava assim como o apreço pelo caimento da roupa no corpo que é o diferencial que minhas clientes gostam. Ter prazer e amor pelo que se faz acreditando nas suas idéias e saber que com tempo é possível chegar aonde se quer. E algo muito importante que aprendi é o modo de tratar os funcionários, costureiras e colaboradores, ter respeito e dar valor às suas habilidades pois não se cria nada extraordinário sem ótimos profissionais envolvidos.

 

Revista Catarina:  Vimos que você traz na essência da marca uma preocupação socioambiental muito forte, você acredito que o slow fashion é o futuro da Moda?

Rochele Gloor: Acredito que o movimento slow como um todo é o futuro: slow food, slow living, slow fashion. É uma maneira quase que holística de resgatar o essencial da vida e com respeito ao meio ambiente e, como toda mudança, tem sido feita um passo de cada vez. Mais e mais empresas e, principalmente, consumidores irão entrar no sistema slow fashion não só pois devemos ser obrigados a cuidar do nosso planeta, onde os recursos naturais se tornarão cada vez mais escassos, mas por ter toda uma geração muito mais exigente e consciente desta transformação e do bem que isso pode gerar no futuro delas. Na verdade, acredito que o movimento slow fashion será aliado das novas tecnologias em materiais têxteis que farão nossas roupas se decomporem em poucos anos de aterro, sem danos ao solo. Pois mesmo se adequando ao conceito slow fashion, para que uma mudança mais significativa de benfeitoria aconteça, num mercado de bilhões de pessoas, a tecnologia será a maior aliada. De qualquer forma, nada se compara ao “comprar menos e comprar melhor”.

 

Revista Catarina: Como suas clientes enxergam esse retardo no consumo , o não uso de tendências e a ideia de se vestir de uma forma mais autoral?

Rochele Gloor: A maioria delas nunca foi grande consumista, são mulheres que compram peças diferentes e ou básicas de boa qualidade para ter uma vida longa com os cuidados certos. Digo o mesmo para as tendências, eu não sigo uma tendência. Claro que sempre tem uma corrente de idéias no meio autoral da moda que, às vezes, se encaixam à certas tendências, principalmente certas silhuetas. portanto de alguma forma elas já tinham esse tipo de pensamento em relação ao consumo. Mas sim, muitas pensam que vale mais a pena comprar uma peça interessante autoral de um valor mais alto que possa ser atemporal do que ter várias peças de tendência que elas não vão mais utilizar em 2 anos.  

 

Revista Catarina: Quem é a mulher que veste Rochele Gloor?

Rochele Gloor: A mulher que veste Rochele Gloor é independente, inteligente e naturalmente linda. É a mulher que toma café expresso sem açúcar, gosta de se alimentar de maneira saudável, e que veste um vestido longo de maneira desprendida…com rasteira para passar o dia em casa na praia ou com um tênis cool para ir a reuniões de trabalho. Minhas clientes são individuais, algumas são mais minimalistas, algumas mais ousadas, e todas tem seu próprio estilo evidenciado com o jeito de montar o look.

 

Revista Catarina: Suas inspirações vem da natureza, movimentos artísticos entre outros, o que podemos esperar das próximas coleção.

Rochele Gloor: As mudanças que acontecem na sociedade é um fator bem importante que geralmente serve como base para toda criação. Tenho peças que sempre estarão sendo produzidas. Mesmo quando crio uma estampa, ela é pensada de forma atemporal que, na silhueta certa poderia, e deveria, ser usada por muitos anos. Para a próxima coleção tenho pensado e testado estampas botânicas mas de forma desconstruída e tenho aperfeiçoado umas peças amplas com modelagem zero waste. Estou me focando na criação de menos peças com mais informação, seja na qualidade de acabamentos ou nos detalhes. Tudo pensado com sustentabilidade mas com design diferenciado. É poesia com técnica!

 

Revista Catarina: Como é o trabalho com as mulheres das cooperativas, elas ajudam no processo de criação?

Rochele Gloor: No início do projeto Atelier da Cruz, em Outubro de 2016, eu ensinei elas a fazerem as peças da minha coleção com costura francesa e acabamentos a mão assim como a criar texturas em tecidos de crepe de viscose, e eram remuneradas por isso. Desde o ano passado, nos focamos somente em reaproveitamento de materiais que seriam descartados e retalhos. Geralmente a modelagem e os detalhes são conversados com elas para planejar a melhor maneira de produzir. Apesar de elas serem motivadas a criar suas texturas, misturas de cores e adornos, o foco do projeto é na qualidade da costura e não na criação. O foco é na execução também pois há um grande tempo gasto no desenvolvimento e elas trabalham com projetos já financiados para que a geração de renda seja contínua e possam ser auto suficientes.

 

Revista Catarina:  Deixe um recado para os leitores da Catarina

Rochele Gloor: A Revista Catarina tem sido referência pra mim aqui no Brasil e vejo, com base nas matérias, que as leitoras são pessoas de bom gosto e conhecimento. Estamos passando por um tempo de transformação: de pensamentos, de energias cósmicas, de estilo de vida, e devemos abrir nossa consciência e coração para o que faz bem para nós…e para os outros…e para o nosso planeta. Tudo está conectado!

 

Agradecimentos e Créditos:
Marcelo Nunes (Bandits Films)
Pedro Fonseca (Bandits Films)
Super Agency
Joy Model Management
Daniele Knevitz Duarte
Fagner Damasceno

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