Entrevista: O Miolo Frito e a ilustração na moda

“Rodízio psicoativo de quadrinhos mastigáveis, nem sempre digeríveis”. É assim que os criadores descrevem o Miolo Frito, uma equipe independente de quadrinhos com uma pegada mais underground. Atualmente gerido pelos amigos ​Breno Ferreira, Benson Chin, Adriano Rampazzo e Thiago A.M.S., o projeto surgiu da ideia de uma plataforma onde os membros​ ​tivessem​ ​espaço​ ​para​ ​sua​ ​liberdade​ ​criativa.

O Miolo Frito já ganhou espaço no cenário de quadrinhos, por conta de sua arte com personalidade, e a mistura de estilos tão diferentes de ilustração que se completam entre si, criando uma identidade única. Além de revistas em quadrinhos, o Miolo Frito já tem um livro, intitulado de BAR, que conta histórias de uma bar frequentado por os integrantes da equipe. Além de sucesso impresso, também se tem disponíveis camisetas com os desenhos dos criadores.

Cada um conta que têm um processo diferente na hora da criação, tanto dos quadrinhos quanto das estampas, e é por isso que se percebe muito da identidade de cada um em suas peças. Um dos criadores do projeto conta que atualmente a venda de camisetas corresponde à 50% da renda da marca, o que é um número bem alto, principalmente agora com o lançamento da loja online do grupo. Quando perguntado sobre isso ele comenta: “Tem uma coisa bem evidente, que um gibi é lido e guardado. A camiseta tem uma utilidade muito mais presente, então a pessoa às vezes opta por algo que vai ser usado muito mais vezes”

Ilustrações em camisetas não é algo novo, já é um clássico de muitas marcas mais jovens há algum tempo. A diferença é que com a facilidade de se vender na internet, e a democratização desse tipo de comércio, muitos ilustradores têm criado sua própria marca de roupas para venda online, o que gera uma maior liberdade criativa e, consequentemente, uma identificação grande do público. Para os fãs do Miolo Frito, eles contam que logo pretendem​ ​expandir​ ​seu​ ​mix​ ​de​ ​produtos,​ ​para​ ​além​ ​de​ ​camisetas.

Segue abaixo nossa entrevista na íntegra com os criadores do projeto, onde buscamos saber mais sobre a história da marca, o interesse por trazer suas ilustrações para a moda, entre​ ​outros​ ​assuntos.

Revista Catarina: Qual foi a ideia inicial de vocês ao criarem o Miolo Frito? Por que acharam​ ​que​ ​a​ ​união​ ​de​ ​artistas​ ​com​ ​traços​ ​tão​ ​diferentes​ ​daria​ ​certo?

Miolo Frito: A ideia era ter uma plataforma para fazer e publicar quadrinhos livremente, acho que não pensamos sobre termos traços diferentes. N​ós nos conhecemos como pessoas antes do trabalho, pois estudamos todos juntos no mesmo ano da graduação em artes visuais. Essas diferenças na verdade são naturais num ambiente criativo, onde não seguimos um padrão comercial e não nos preocupamos em seguir algum padrão de estética estabelecido no universo dos quadrinhos. C​laro que cada um de nós se interessa por coisas diferentes, e essas referências influenciam nossos trabalhos. Sobre dar certo, não​ ​sei​ ​bem,​ ​acho​ ​q​ ​ainda​ ​não​ ​deu!

R.C.:​ ​Qual​ ​a​ ​história​ ​por​ ​trás​ ​do​ ​nome​ ​“Miolo​ ​Frito”?​ ​Quem​ ​escolheu?

Miolo Frito​: ​Na época o Breno e o Benson estavam fazendo um curso no SESC com o Mutarelli e iam depois dos encontros no bar do Valmir, daí entre os nomes que surgiram Miolo foi o menos pior. O Frito veio uma semana depois quando o Benson se recordou de uma história do pai dele que durante a guerra civil de Moçambique teve que comer miolos. Mas depois de publicada a nossa primeira edição descobrimos que já havia uma página geek chamada Miolos Fritos que já possuía milhares de seguidores. Como trabalhávamos em​ ​coisas​ ​totalmente​ ​distintas,​ ​decidimos​ ​manter​ ​o​ ​nome.

R.C.: As tirinhas de vocês têm um humor diferente, às vezes até comcríticassociais por trás. Na visão de vocês como produtores independentes, qual a importância desse​ ​tipo​ ​de​ ​expressão​ ​artística​ ​atualmente?
Miolo Frito: ​A importância dos quadrinhos sempre foi algo discutível. Pessoalmente me interesso por gostar muito de ficção, de narrativa, e de desenho também. O poder dos quadrinhos está nesse tempo elástico impossível, que não é possível no cinema justamente pelo tempo já estar determinado. O tempo nos quadrinhos reside nesse espaço que há entre um quadro e outro, e esse tempo não é definido, ele é abstrato, então essa narrativa tem possibilidades infinitas, e acho que isso é o que me fascina mais. Além do fato dos quadrinhos serem uma coisa meio esquisita, meio num mundo à parte. Já sobre a crítica social, acredito que ela fica mais evidente em alguns momentos, e em outros passa meio que sutilmente. Acho que algumas posturas nossas acabam transparecendo na história mas nunca​ ​é​ ​o​ ​principal​ ​da​ ​narrativa.

R.C.: O Miolo Frito já possui uma linha de roupas coma estampa de vocês. Porque a ideia​ ​de​ ​trazer​ ​esse​ ​projeto​ ​pra​ ​moda,​ ​e​ ​qual​ ​público​ ​vocês​ ​atendem?

Miolo Frito: ​Por enquanto fazemos camisetas, mas temos planos de expandir para outros tipos de peças de vestuário, talvez ano que vem. Este mês lançamos nossa loja online, que foi uma grande vitória, porque até então nossas coisas só estavam disponíveis conosco ou em feiras, mas aí fica uma coisa meio restrita ao sudeste (e mais recentemente sul), que são os lugares que temos condições de ir. A ideia de fazer camisetas foi meio orgânica, fizemos logo no início, lá em 2013/2014. Gostamos de camisetas com desenhos, e pensamos:​ ​por​ ​que​ ​não​ ​fazer​ ​com​ ​os​ ​nossos? Não há um plano muito definido, mas, atualmente, a venda de camisetas representa aproximadamente 50% da nossa receita. Nosso público das camisetas é, muitas vezes, o mesmo dos gibis. Mas acontece algo engraçado que bastante gente se interessa pelas camisetas e nem olha os gibis, então, apesar de fazerem parte da mesma estética e serem vendidas no mesmo lugar, acabam ficando separadas mesmo. Tem uma coisa bem evidente, que um gibi é lido e guardado. A camiseta tem uma utilidade muito mais presente, então​ ​a​ ​pessoa​ ​às​ ​vezes​ ​opta​ ​por​ ​algo​ ​que​ ​vai​ ​ser​ ​usado​ ​muito​ ​mais​ ​vezes.

R.C.: Como funciona o processo de inspiração, criação e confecção das peças do Miolo​ ​Frito?

Miolo Frito: ​O processo é bem individual, cada um de nós trabalha de maneira diferente. Eu diria que o meu (Adriano) é meio destrambelhado, vou fazendo na hora, sem planejar muito. Nós sempre fizemos coisas juntos também, e de uns tempos pra cá intensificamos esse processo. O BAR, livro que lançamos em abril pela Mino Editora, foi em grande medida feito assim. Então tem desenho de um na história do outro, várias partes foram concebidas em conjunto, e em algumas páginas tem desenhos de todo mundo, que são os 4​ ​do​ ​miolo​ ​mais​ ​o​ ​Shun,​ ​nosso​ ​convidado​ ​no​ ​livro. Já a confecção varia muito. Nós usamos vários tipos de impressão diferentes, desde algo que nós mesmos fazemos, como poster em serigrafia, até​offset feito numa gráfica grande e tal. Já as camisetas, desde esse ano, estão sendo feitas por uma confecção. Antes nós comprávamos e estampávamos nós mesmos, mas agora demos na mão de profissionais, para​ ​termos​ ​um​ ​produto​ ​de​ ​maior​ ​qualidade.

Vale lembrar que o Miolo Frito vai estar participando da Semana Balaclava, que acontece entre os dias 6 e 12 de novembro, em Florianópolis. Eles estarão presentes no dia 9, com um workshop sobre quadrinhos, onde serão discutidas várias questões desse mundo. Para mais​ ​informações​ ​acesse​ ​o​ ​site​ ​do​ ​evento,​ ​​aqui​.

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