Propriedade intelectual: entrevista com Dudu Bertholini

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Autenticamente fake. É assim que Dudu Bertholini, com largo sorriso estampado no rosto, descreve a sua maneira exuberante de ser. Quem conhece a figura – seja pessoalmente ou por meio de alguma aparição pública – sabe que Dudu não esconde quem é. Sua personalidade está ilustrada nas cores de seus trejeitos, na confiança de seus movimentos, na fala rápida e clara. Multidisciplinar, Bertholini encara o segundo semestre de 2013 com um novo modelo de negócios (recentemente fechou o atelier da Neon, marca que fundou com Rita Comparato, para transformá-lo em um escritório de branding e licenciamento), o documentário “De gravata e unha vermelha” e o projeto 2 Fanzine, cuja sétima edição acaba de ser lançada. Na conversa com a Revista Catarina, durante o workshop que ministrou com o IBModa, Dudu fala de sua essência como professor, stylist, designer, empresário e, principalmente, criador.

 

Revista Catarina: Dudu, para começar, como está sendo a oficina para você? Como é sentar na cadeira do professor?

Dudu Bertholini: Bom, eu já faço este workshop há alguns anos, e eu tenho viajado por todo o Brasil com ele. E pode parecer um pouco clichê, mas o professor aprende muito. Quando você leciona, isso promove um tipo de troca que acrescenta muito para a gente.  Eu fico muito feliz porque às vezes eu acho que consigo, em um dia, dar um tipo de combustível que pode levar anos na faculdade. Eu percebo que os alunos já estão aqui para um direcionamento do próprio conhecimento. E quando temos essa abertura, os resultados aparecem com mais rapidez. As pessoas despertam para o próprio universo, compreenderem o styling de outra maneira, e eu posso dizer dou o máximo que eu posso dentro disso. É muito gratificante para ambas as partes.

 

RC: Para quem acompanhou a indústria criativa brasileira em tantas fases, como você avalia a nova geração de estudantes e profissionais?

DB: É interessante porque eles têm uma grande liberdade com a tecnologia, com a informação e uma facilidade de integração com tudo isso. Então eles sabem de tudo um pouco, mas quase tudo mal. Há uma grande flexibilidade, mas por outro lado, podem correr o risco de serem superficiais. E é engraçado porque eles têm uma memória muito recente. A nova geração é muito negligente quanto ao passado.

 

RC: Isso é refletido no mercado?

DB: Acho que o mercado hoje em dia é feito de nichos. O que precisamos descobrir é qual é o nosso e onde queremos levar a nossa marca. Hoje em dia, temos a chance de aprender a modular o nosso negócio, já não existe mais a obrigação de fazer uma marca e desfilar. Podemos fazer de tudo – vídeo, blog, fanpage, existem muitas maneiras diferentes de se comunicar. A característica de uma marca contemporânea é que o branding é tão importante quanto o produto. O estilista é um businessman, é um marketing man, é um frontman. Ele tem que ser tudo isso, para poder ser o comunicador de sua marca. Eu diria para a nova geração se aprofundar, conhecer quem veio antes, usar essa liberdade com os meios de comunicação. O investimento intelectual tem que ser maior que o financeiro. Hoje em dia com ideias espertas, se vai longe.

 

RC: Falando em novos modelos de negócio, a Neon acaba de passar por uma transformação.

DB: Sim! É muito curioso até que a gente tenha anunciado o fechamento do atelier exatamente quando a marca fez dez anos. Mas isso não significa que é o fim da marca. O que estamos fazendo é congelando a nossa operação do atacado. O mercado mudou muito de dez anos para cá e a impressão que tenho é que vivemos 100 anos em 10. E a confecção é um dos negócios mais difíceis de se gestar. Se pensar que do primeiro gasto que tenho com uma coleção, que é mandar fazer a estampa, até o cliente final pagar essa coleção é quase um ano de tempo. E nós, heroicamente, sempre tivemos uma gestão independente, nunca tivemos nenhum grupo de investimento por trás.

 

RC: Por que vocês decidiram mudar de marcha agora?

DB: Na verdade percebemos durante esses dez anos o quanto a confecção própria foi se tornando contraproducente. E por outro lado, construímos uma das identidades de moda mais fortes do país. O fato é que a nossa propriedade intelectual não depende do nosso escritório, da nossa confecção, desses custos fixos. Ela pode estar transitando por um universo muito mais amplo. Eu acho que se a gente nunca tivesse tido essa história, é difícil uma marca começar e de cara optar pela terceirização e licenciamento. No nosso caso, depois de uma década de história e tendo fortalecido essa identidade de uma forma tão clara, o cliente do licenciamento não compra apenas o nosso design. Compra nosso branding, nosso marketing, vai ter de nós não apenas a criação, mas toda a nossa comunicação. Somos embaixadores produto e por conta disso, podemos aproximar mercados de outras esferas para o mercado de moda. Podemos produzir desde caixas de fósforo, carro, porcelana, movelaria…

 

RC: Mas trabalhar com licenciamentos não é novidade para a Neon, certo?

DB: Já faz um tempo que temos investido na questão dos licenciamentos, mas ela ficou bem forte no ano passado. O principal ponto que nos atentou para isso foi uma parceria com a Macys. Eles compraram 50.000 peças nossas para vender em 300 pontos. Da nossa parte veio a modelagem, estampa e branding. Só que ao produto final deles, infelizmente produzido na América do Norte e China, já que não temos preço competitivo para isso, custava de US$60,00 a US$200,00. E eu não consigo fazer um vestido de malha que custe isso! Sendo que meu produto que é 100% nacional e que deveria passar por uma série de incentivos para baratear a produção. Mas pelo contrário! Chega no mercado interno caríssimo e no externo, inviável. Então vimos a confecção chegar nessa sinuca de bico. Já faz um tempo que eu anuncio meu desejo de transformar a Neon em um escritório de branding. Só que este ano foi o ano que isso teve que acontecer, por uma série de motivos. É uma reinvenção, não um fim.

 

RC: Você acha que o cenário seria outro se a moda tivesse mais apoio do governo?

DB: É obvio que o incentivo governamental seria muito importante, mas não de uma forma paternalista. Somos uma das maiores indústrias do país em termos de emprego, de cadeia produtiva. Tanto que a discussão da lei Rouanet é polêmica porque, poxa, precisa da Lei Rouanet? Merecemos [ser incluídos] porque, de fato, fazemos algo que é cultural e, no final das contas, dependemos de incentivos tanto quanto artistas e outros projetos. Mas a razão disso é porque esse incentivo deveria vir de outros ministérios. Antes de tudo, a moda é uma indústria, é um comércio poderosíssimo! Que triste chegar a um momento do nosso país em que a solução é importar produto da China, sendo que a gente deixa de incentivar a nossa indústria, a nossa cadeia produtiva.

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RC: Mas não é só moda que o define, Dudu. Pode falar um pouco do documentário “De gravata e unha vermelha”, que conta com entrevistas conduzidas por você?

DB: Claro. Estou muito animado com esse projeto porque ele é bastante humano. Trata-se de um registro sobre pessoas que transgridam gêneros. Eu fui convidado pela Miriam Chnaiderman, que tem um trabalho superbonito, para ser um dos personagens entrevistados. Ela me via de turbante na padaria – éramos vizinhos – e ficava encantada com o comportamento tão natural entre as pessoas ao redor e eu, vestido de forma tão exótica. Aí me envolvi mais e passei a conduzir algumas conversas. Começamos a visitar pessoas das mais diferentes esferas – transexuais, cross dressers, travestis e o que nos chamamos de gender fuckers, que são as pessoas que estão aqui muito mais para ferrar com os gêneros do que para escolher algum deles. E com isso entrevistamos o Ney Matogrosso, que eu considero percursor dentro desse projeto. O Johnny Luxo, DJ, que também tem esse aspecto. Todo mundo que está no filme tem que se entregar.

 

RC: O que você aprendeu com a experiência?

DB: Para mim, o mais bonito desse projeto é o quanto eu refleti sobre o ser humano. Os entrevistados, antes de tudo, são pessoas que buscam a sua felicidade à sua maneira. E a coisa que mais gosto do meu trabalho é que eu posso comunicar isso. Que o seu trabalho pode vir da sua liberdade. Se alguém me contasse quando eu era pequeno que todo o meu trabalho ia poder vir de eu sendo o Dudu mais Dudu que eu posso ser, seria uma alegria tão grande de escolha que só isso me dá um respaldo para todas as coisas ruins ou boas que me venham acontecer profissionalmente. Eu as escolhi. Eu me dei a chance da escolha. E só me arrependeria das coisas que não fiz. Então nesse sentido, essa mensagem libertária que a minha figura e que o meu trabalho possa passar, isso para mim é a coisa mais fantástica.

 

RC: Isso reflete a sua maneira de viver?

DB: Sim, está na minha essência ser multidisciplinar e poder me comunicar de diversas maneiras. Minha essência é a minha energia, essa exuberância colorida, forte… ou como eu brinco, “autenticamente fake”! “Verdadeiramente poser”! Acho que são maneiras que eu encontrei de me relacionar com o mundo. Sou uma pessoa bastante aberta. Sempre que percebo que as minhas amarras ou meus preconceitos podem estar me prendendo, eu me esforço para me libertar deles. Acho que isso é uma busca constante, espero nunca me enferrujar.

 

Texto: Camila Beaumord

Imagens: Marcos Moreira

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