Dos barcos para o interior da casa

O curso de design foi o ponto de encontro para Lorena Kreuger e José Serafim Junior darem início a uma técnica particular de movelaria. Aliando a expertise de Lorena com marcenaria náutica e o conhecimento de José em design de produtos, nasceu a Movelaria Boá.

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Design aliado à sofisticação descomplicada. Talvez seja isso o que mais defina o conceito que Lorena Kreuger, 31 anos, e José Serafim Junior, 32 anos, conseguiram imprimir em suas criações. Conceito que já começou descomplicado, quando a dupla de design apostou em uma ideia inovadora, mas de forma despretensiosa. Lorena e Zé estudaram juntos na faculdade de design, na UDESC e amadureceram seus projetos depois que Lorena assumiu o estaleiro da família Kreuger, o Kalmar.
Instalado há 33 anos em Itajaí, o estaleiro Kalmar esteve no comando de Lars Krueger, pai de Lorena, até 2008. Lars, que se formou em engenharia em Florianópolis, se especializou na técnica de marcenaria naval nos Estados Unidos e de volta ao Brasil, em 1982 e ao lado do pai Erik, fundou o estaleiro, especializado em fabricação de embarcações, móveis náuticos, recuperação, restauração e serviços de manutenção. Velejadora e apaixonada pelo mar, Lorena, que cresceu no estaleiro, assumiu os negócios após a morte do pai dando continuidade ao seu trabalho conceituado nacionalmente.

– Eu fui bem recebida quando tomei conta dos negócios. Eu estou aqui desde pequena, eu engatinhei aqui em tudo. Temos funcionários antigos, a base da empresa é familiar, sempre fui tratada com muito respeito aqui. Eu carreguei a honra do meu pai, sempre me respeitaram, foi tudo muito tranquilo. Sempre encarei tudo com muita naturalidade. Sou meio moleque, sempre fui – brinca Lorena.

Em 2012 Lorena e Zé começaram a desenvolver seus protótipos para apresentar ao público a sua ideia inicial e assim nasceu a Movelaria Boá. O nome vem da paixão pela madeira, já que boá é a fonética de bois, que significa madeira, em francês. Eles queriam levar às casas, a movelaria naval, com design e ergonomia, sem perder a identidade náutica. Lorena conhecia a técnica, que é algo muito particular e não havia concorrentes.
O desafio para Zé foi diferente, pois era sócio em uma empresa em Florianópolis de design geral, como eletrônicos e coisas diversas. Era um novo ramo, o de móveis, mas com foco no design, que era sua paixão. Positivo, o designer via os desafios como a parte boa do trabalho, e depois de alguns anos de empresa, Zé continua com a mesma opinião, já que os projetos especiais, nos quais ambos precisam pensar e desenvolver a inteligência, é o grande e melhor desafio da Boá.

– Nós desenvolvemos a técnica em cima da técnica da marcenaria naval, que já não é algo muito convencional. Adaptamos o que a gente poderia fazer de móveis com isso e surgiram várias peças diferentes – conta Zé.

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As primeiras peças foram lançadas em uma feira de Itajaí, e a resposta do público foi imediata e positiva, com muita mídia espontânea. Inexperientes, tinham a produção nas mãos através do estaleiro Kalmar, mas não sabiam ao certo o que fariam. Tinham baixo risco, então fabricaram uma peça de cada. O acabamento e o desenho foram muito elogiados, fizeram contato com lojas, tinham uma boa assessoria de imprensa. Mas logo viram que era difícil fabricar para estes pontos de venda, ao passo que o produto custaria três vezes mais, tratando-se de peças caras. Em seguida começaram a se encaixar em algumas possibilidades. O desenvolvimento de projetos especiais para arquitetos foi a solução e se dedicaram a esse ramo, adequando melhor seu produto.

– Quando a gente fala sobre móveis de embarcação, temos que lembrar que o barco é uma coisa só. Faz parte de fabricar o barco, fazer todo o seu interior. No caso da Boá, a nossa intenção foi de trazer a técnica que a gente usa nas embarcações para dentro de casa. Buscamos gerar peças que esteticamente tivesse uma conexão visual, que lembrem embarcações ou aquelas que apenas usam as técnicas, como as que vendemos em algumas lojas, desenvolvidas por designers e arquitetos. São técnicas bem desconhecidas da marcenaria em geral, principalmente da marcenaria residencial – conta Lorena.

O Kalmar vive de projetos náuticos, com épocas de trabalho intenso. Um projeto náutico leva em média de quatro a cinco meses para ser finalizado. Como todo negócio, tem as chamadas épocas de “vaca gorda” e alguns meses sem nada na sequencia. Por isso, Lorena pensou que poderia conciliar a movelaria com a excelência do seu estaleiro e criou uma alternativa. A sua parte é administrativa, seu foco é no rendimento e no faturamento da empresa. Zé cuida do design e tem uma grande preocupação com acabamento, pois as peças precisam estar perfeitas para a vistoria. Segundo Lorena, a exigência de quem compra móvel é diferente de quem compra barco, as pessoas são muito mais exigentes com a casa. Ela ainda afirma que alguns mínimos detalhes às vezes nem passam na vistoria.

DIFERENCIAL
Atualmente a Movelaria Boá desenvolve diversos projetos terceirizados. Como trabalham com técnicas navais, conseguem desenvolver projetos que não saíam do papel até chegarem às suas mãos. Peças premiadas, como a mesa K2 (que sustenta um vidro pesado em uma espessura fina de madeira) e o Banco Osso, desenvolvidos para os conceituados arquitetos Rafic Farah e Otávio Coelho, vendidas na loja Dpot em São Paulo. A luminária Canoa também é um best seller da Boá, além da mesa Bowl, desenvolvida para o escritório paulista Bernardes Arquitetura no final de 2015.
A ergonomia das peças é um dos principais fatores levados em consideração por Lorena e Zé, ao passo que suas peças são feitas em madeira. Zé fez um estudo de mestrado em ergonomia e controla o fator conforto em suas peças. Como tornar uma poltrona de madeira convidativa? Essa é a grande questão da maioria das pessoas e segundo Lorena, elas se surpreendem com o conforto que a Boá consegue imprimir na madeira. Quando um projeto chega à empresa, nem sempre está dentro dos padrões de fabricação. Há a interferência de Zé e Lorena, para alertar, falar dos pontos de fixação e deixar a peça o mais perfeita possível. O processo é todo pensando.
– Em 2015, a Boá fechou o ano com uma média de 50 peças entregues. Oscilamos na produção mensal, alguns meses nós temos entregas grandes e outros fabricamos três peças. Os projetos são muito diferentes, às vezes são menos peças, mas com preços altos.

VENTOS FUTUROS
Durante três anos, um trabalho estratégico de marketing foi feito no Kalmar e na Movelaria Boá, para organizar as duas empresas, que são fontes diferentes de faturamento. Com isso criaram o hábito de fazerem planejamentos estratégicos e planos de negócios. Como trabalham com projetos, a atual crise econômica não teve grande impacto sobre os negócios. Com 17 colaboradores na fábrica e a produção em constante crescimento, Lorena tem o pé no chão e não quer arriscar:
– Estamos em um momento de repensar a empresa, para reduzir custos. Como trabalhamos por projetos, às vezes a crise não chega. Mas é sempre meio tenso e estamos aproveitando essa fase para dar uma repensada. Somos pequenos, mas produção da Boá está crescendo!
Apaixonados por marcenaria, Lorena e Zé transformaram o espaço anexo do estaleiro em uma oficina. Foram feitos quatro cursos de marcenaria de teste, e a ideia deu tão certo que as inscrições acabaram rapidamente. A intenção é ministrar cursos para quem procura a marcenaria como hobby, com temas específicos, como skate, a prancha SUP (stand up paddle), luminárias e a famosa poltrona Krat, do arquiteto holandês Geritt Rietveld. A divulgação é feita na loja virtual da Boá pelas redes sociais do estaleiro Kalmar, além da lista de e-mails das duas empresas. Em 2016 serão novos temas, com maior abrangência.

por equipe Revista Catarina
pauta publicada na Revista Donna, cliente Catarina

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