Comportamentos da era digital

Online versus Offline: como o medo de estar por fora e o prazer em se desconectar permeiam o dia a dia das pessoas nas era da hiperconexão. 

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O fotógrafo Michel Téo Sin começou 2016 convicto de uma resolução: reduzir o tempo em que passa conectado nas redes sociais. Essa não é uma daquelas promessas de fim de ano que passam batidas. Prestes a ser pai, ele quer aproveitar cada momento com sua filha – em presença real, não virtual. Na prática, a operação offline já começou. 

“É evidente o tempo e energia que se gastam na internet com coisas que não são tão relevantes para sua vida, te deixam mal, além das coisas que você deixa de fazer no mundo real. É de certa forma triste pensar que hoje não é mais estranho almoçar com um smartphone na mão ou entrar num elevador e ninguém pelo menos olhar para seu rosto.”, escreveu o fotógrafo em seu mural do Facebook ao comunicar que estava recuando das redes sociais.

Michel tem perfil no Facebook, Instagram e Snapchat. Com menos frequência, ainda utiliza Twitter, Pinterest e gerencia seu blog. Desligar-se completamente nunca foi uma opção, afinal a internet é uma grande ferramenta para autopromoção do seu trabalho. Ao invés disso, o que o fotógrafo fez foi apenas equilibrar suas escolhas, usando as redes de forma produtiva e objetiva.
“Um dia, decidi acessar a internet em certos horários e por tempo determinado. Vi que a produtividade do dia melhorou e sobrava tempo para fazer diversas coisas. Mensagens, comentários, curtidas e linhas do tempo estão sendo substituídos por cafezinhos, encontros, abraços, livros, ruas e lugares.”

O engajamento e a interação nos perfis virtuais do fotógrafo já vinham diminuindo há algum tempo. Mas o que despertou sua decisão de desacelerar foi um caso que aconteceu na academia – nada extraordinário, mas talvez ele tenha sido o único a notar.
“Observei algumas pessoas que ficavam no smartphone nos intervalos dos exercícios. Enquanto eu estava no terceiro, elas ainda estavam no mesmo, sem perceber o que acontecia ao redor e nem dando atenção para as pessoas que estavam esperando o aparelho.”
O comportamento que Michel notou está ligado ao medo de ficar por fora. E já existe, inclusive, um nome para esse fenômeno. Chama-se FOMO (em inglês, fear of missing out).

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O MUNDO FAZ QUESTÃO DE NOS MOSTRAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO

As redes sociais são uma grande porta de entrada para o acesso à informação. O mundo moderno passa o tempo todo conectado. Sabemos o que se passa no cenário político, mas sabemos, principalmente, o que nosso vizinho comeu no último almoço, a qual show nossos amigos assistiram no último final de semana ou se nossa colega de trabalho realmente foi à academia todos os dias, como prometeu. Está tudo registrado: no Facebook, no lnstagram, no Snapchat. Recebemos, diariamente, uma avalanche de informação que nos deixa ansiosos – em alguns casos, até viciados – pela próxima atualização. As redes sociais estão sempre a postos para nos propor eventos, mostrar ocasiões e compartilhar informação. Em meio a tantas opções, somos obrigados a fazer uma escolha.

“Estamos passando por um momento, nesse século, muito preocupante a nível psicológico, que é essa angústia generalizada sobre a ansiedade em excesso”, diz a psicóloga Ilana Martins Vaz. “Hoje, as pessoas não são satisfeitas. Elas sempre estão em busca de algo, e vivem no imaginário de que tudo é perfeito e de que elas poderão estar em todos os lugares, o que é impossivel.”

FOMO não e’ doença nem transtorno (embora possa evoluir para casos de vício em internet e desencadear depressão e fobias sociais). Tampouco é algo novo. Sempre existiu, por exemplo, o incômodo de ir a um evento, mesmo não estando disposto, porque simplesmente todos do seu círculo de amizade decidem ir e você não quer ficar de fora. O aborrecimento de não ter sido convidado a uma festa sempre existiu também. Porém, com a massificação das redes sociais, e todas aquelas postagens no lnstagram que te fazem lembrar “Eu não fui”, a situação se agrava.
“Vivemos uma busca insana da felicidade relacionada não ao nosso desejo, mas sim relacionada à felicidade do outro. As pessoas estão sempre comparando suas escolhas e ações. Isso gera uma angústia constante de que a grama do vizinho é sempre mais verde”, completa a psicóloga.

 

DESCONECTAR, DESACELERAR E SILENCIAR

Contrário a esses fenômenos, surge fortemente o movimento JOMO: joy of missing out. Traduzindo, prazer em ficar de fora. Exatamente! Existe alegria por parte de algumas pessoas em saber que elas não estão nos lugares comuns. Elas querem vivenciar algo único, intimista, em seu próprio ritmo. De preferência, com a tranquilidade necessária para aproveitar cada segundo, sem se preocupar com outras opções de escolha. Trata-se de apreciar um tempo só para si, desligando-se de e-mails, redes sociais e aplicativos. Essa é uma escolha de vida que até as empresas estão adotando em horários estratégicos. Na sede da Google, por exemplo, localizada no Vale do Silício (Califórnia, Estados Unidos), é indicado meditar no intervalo de almoço. Além disso, os celulares são banidos na hora da refeição. E estamos falando da Google, uma empresa que depende de as pessoas estarem conectadas!
A ideia de desacelerar e abraçar um pouco a solitude pode parecer chata, mas se você busca um incentivo, existem, sim, benefécios. Pesquisadora em neurobiologia, a estadunidense Susan Cain defende, em suas palestras da organização TED, que tirar um tempo apenas para si provoca o bem-estar de modo a estimular boas ideias. Além disso, a pesquisadora afirma que há melhor rendimento de trabalho feito em lugares calmos.

DICAS PARA A PRATICA DE JOMO

Compartilhar tornou-se uma forte tendência de comportamento. Conseguimos acompanhar muito daquilo que se passa longe e perto de nós. Até mesmo durante as horas de trabalho, nosso celular permanece na mesa, prontamente acessível. E e difícil mantê-lo longe. Afinal, as relações de trabalho também mudaram em consequência das redes sociais. É comum recebermos orientações do chefe via Whatsapp, por exemplo. Não adiantaEstamos ligados. Mas o que podemos fazer para desacelerar?

  • O primeiro passo, e mais óbvio, mas que você precisa encarar é: pergunte a si mesmo se você está afim. É preciso querer!
  • Antes de almoçar com a família ou amigos, tire um tempinho para checar e-mails e dar uma última espiada nas redes sociais. Na hora da refeição, nada de celular.
  • Quando você começa uma dieta, é muito mais fácil segui-la se as pessoas que moram com você também entram na onda, certo? Pois então, convide um amigo ou namorado para fazer o detox digital com você.
  • Desative as notijicações sonoras. Elas distraem e nos deixam ansiosos. Afinal, é difícil não abrir uma mensagem quando você sabe que a recebeu.
  • A tecnologia e muito bem-vinda quando sabiamente utilizada .Que tal, dessa vez, usar o celular a seu favor? Existem aplicativos, como o Moment, que estabelecem um limite de uso do smartphone, disparando um alarme assim que esse tempo é ultrapassado. Outros aplicativos com função semelhante são o BreakFree e Digital Detox.

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NÃO FAÇA NADA

Ou melhor, pratique o não fazer nada. Essa é a filosofia do movimento Clube do Nadismo, criado em 2006 pelo designer Marcelo Bohrer, natural de Porto Alegre. Mensalmente, o Clube reúne pessoas em locais públicos – normalmente em parques ou lugares tranquilos – para um evento onde os participantes apenas relaxem durante uma hora aproximadamente.
“O nadismo propõe uma importante transformação cultural: a consciência de que fazer nada não é perder tempo, mas uma forma muito valiosa de aproveitá-lo. Assim, literalmente sem fazer nada, aprendemos a desacelerar e vivemos melhor,” define o fundador.
Dar uma pausa nos dias atuais, onde somos estimulados constantemente a produzir e cobrados a obter resultados, é muito difícil. Parece proibido! Normalmente, associamos a prática de não fazer nada a uma ideia de perda de tempo. Nos sentimos culpados pelo ócio. Porém, o Nadismo enxerga esta experiência de outra forma: é uma maneira valiosa de recuperar o equilíbrio e evitar as doenças causadas por tensão, ansiedade e estresse.
“A partir do momento em que nos permitimos relaxar, nós começamos a perceber o quanto a rotina nos agonia e nos angustia”, diz a psicóloga Ilana Martins Vaz. “Parar por alguns minutos é muito significativo para o organismo, principalmente na questão neurológica. Isso proporciona um ótimo periodo de autoconhecimento, que nos faz lidar com nossas dúvidas, cobranças e exigências diárias. Através desse momento, adquirimos mais segurança no dia a dia e melhor qualidade de vida. Ou seja, é um bem estar maravilhoso.”

O Nadismo segue a mesma premissa de movimentos internacionais como Ócio Criativo, Simplicidade, Movimento Slow e Clube da Preguiça. “Neste tempo de não fazer nada, nos conectamos com nossos sentimentos mais primitivos, que nos remetem ao autoconhecimento de nosso passado”, diz Ilana Vaz. “Entramos muito em contato com nosso eu, proporcionando, assim, mais segurança para as escolhas do nosso futuro”. Além dos encontros organizados pelo clube, o Nadismo estimula o abandono momentâneo da utilização dos aparelhos tecnológicos diariamente ou mesmo semanalmente. “Desacelerar é essencial nos dias atuais”, alerta Vaz. “Principalmente para evitarmos que as crianças de hoje se tornem adultos extremamente ansiosos. Elas já vivem o reflexo do nosso comportamento acelerado. Os colégios, por exemplo, exigem mais tarefas. É dificil observarmos, na educação, atividades relacionadas ao relaxamento, ao não fazer nada. As crianças já vão à escola pré-dispostas a estarem ocupadas o tempo todo. Estamos criando pessoas que, no futuro, serão adultos extremamente angustiados, em depressão, com doenças psiquiátricas decorrentes do excesso de cobranças e da falta de relaxamento e autoconhecimento. Até as máquinas param por algum período. Nós tocamos 24 horas durante todos os dias e não paramos nem dez ou cinco minutos para nos observarmos.”

O conceito de criar um movimento que pregasse momentos diários de ócio surgiu em 2005, quando o designer Marcelo Bohrer, que Vivia em Londres (Inglaterra), sofreu uma crise de estresse provocada pela Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico caracterizado como o ponto máximo do esgotamento profissional. De volta ao Brasil em 2006, ele trouxe o projeto para sua cidade natal – Porto Alegre -, divulgando-o em diferentes meios de comunicação e através do lançamento do livro Nadismo: Uma revolução sem fazer nada. Para participar das atividades, basta se associar gratuitamente no site. A programação é enviada por e-mail. Também é possivel se tornar um embaixador do Nadismo em sua cidade, auxiliando na organização de eventos. Hoje o clube tem mais de sete mil sócios espalhados pelo Brasil e em oito países. Desde que foi criado, o Clube do Nadismo realizou pelo menos 70 encontros em diversas capitais brasileiras. Londres e Nova York também já sediaram o evento. Em junho, é a vez de Munich, cidade localizada no sudeste da Alemanha. A participação é gratuita, e após os 60 minutos de relaxamento, os participantes serão convidados a um bate papo com o fundador do Nadismo. Como incentivo à prática do não fazer nada, anualmente é celebrado o Dia Nacional do Nadismo a cada 13 de dezembro.

DIRETRIZES DO NADÍSMO

  • Não se preocupe com o relógio! Este tempo é totalmente seu para que você desfrute o fazer nada sem pressa. Podem ser apenas alguns minutos, meia hora, a tarde toda… Não importa quanto tempo seja, desde que você o perca numa boa.
  • Esqueça qualquer objetivo. O nadismo não tem nenhum propósito. Você simplesmente fica largado, em total passividade, como uma planta ou uma pedra. Por sinal, quanto menos você se esforçar, melhor será sua prática de nadismo.
  • Desligue o monitor, feche o notebook, coloque o celular no silencioso. Desconecte-se, vá para um lugar mais tranquilo, onde ninguém vá lhe importunar.
  • Continue de olhos abertos observando passivamente o mundo ao seu redor. Muitos pensamentos surgirão na sua cabeça, mas você não precisa fazer nada com eles. Um após o outro os pensamentos passam como as nuvens no céu. Só cuide para não cair na armadilha dos pensamentos produtivos que vão querer que você ganhe tempo pensando antes o que tem que fazer depois.

OUTROS SENTIMENTOS DE ANGÚSTIA NA ERA DAS REDES SOCIAIS

O jornal inglês The Guardian, em janeiro deste ano, publicou em sua versão online um guia com a definição de outros comportamentos derivados de FOMO:
MOMO é uma variação do medo de ficar por fora. Em inglês, a sigla quer dizer mistery of missing out. Trata-se da inquietação em não saber o que está acontecendo. Dai vem o mistery da sigla (mistério, em português). Para esclarecer e diferenciar estes comportamentos, quem sofre de FOMO são aqueles que sabem o que estão perdendo e, por isso, ficam angustiados. Já os que sofrem de MOMO são ainda mais ansiosos. Eles sofrem por não saber o que está acontecendo; se questionam por que não há nenhuma postagem nas redes sociais sobre determinado evento. A vítima de MOMO começa a criar teorias para tentar entender por que seus amigos pararam de compartilhar os momentos e se sente excluída.

BROMO é quando os amigos (bros, na gíria inglesa) deixam de publicar as fotos de algum evento, porque sabem que aquele do grupo que não pôde comparecer ficará ainda mais chateado.

FOJI é o comportamento de não publicar nas redes sociais por que a pessoa não sabe o que dizer a respeito do acontecimento e por medo de que poucas pessoas curtam a postagem. Trata-se do medo de participar (fear of joining in).

SLOMO (slow to missing out) se refere ao sentimento de começar o dia mal, porque logo que levantou, a pessoa checou as postagens que perdeu enquanto dormia, e descobriu que aquelas horas anteriores foram muito mais divertidas para outras pessoas do que para ela.

por equipe Revista Catarina
pauta publicada na Revista Donna, cliente Catarina

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