Autorretratos, por Renata Cechinel

Renata Cechinel é uma artista nata. Fotógrafa por formação, explorou diversos caminhos com a moda no Brasil e hoje segue com suas experimentações em Verona, na Itália. Foi com o intuito de se expressar artisticamente que Renata iniciou uma série de autorretratos, que se desdobrou em diferentes caminhos, influências e formas. Atualmente, a fotógrafa trabalha no projeto Artistas Brasileiras, no qual retrata mulheres públicas fortemente enraizadas na cultura do país, como Maria Bethânia. “Tive interesse de incentivar, pelo menos da minha maneira, a valorização da nossa cultura popular,” explica. “Assim como eu tento interpretar cantoras brasileiras que admiro, gostaria de convidar outras pessoas a fazerem o mesmo, com outros artistas, outras figuras interessantes, criando de diversas formas, além da fotografia.” Em nossa conversa, Renata fala sobre suas influências e sua visão do mercado criativo nacional. Confira:

Sobre fotografia: Desde pequena tenho interesse de observar imagens, compor looks. Muitas pessoas contam histórias de maneira escrita, eu gosto de contá-las através de fotografias e tudo o que envolve sua composição. Mais especificamente, meu interesse por fotografia surgiu quando fui fotografada pela primeira vez, aos 14 anos. Virou um hobby, eu montava um pequeno estúdio na garagem de casa, com lençol e cyber-shot, nada profissional, mas com alguns resultados interessantes.

Sobre a moda: Minha vontade despertou praticamente ao mesmo tempo [que comecei a experimentar com fotografia], mas fortificou o interesse após uma situação financeira difícil em 2008, o que me fez conhecer os brechós, uma maneira alternativa de me vestir bem sem precisar gastar muito. Eu já adorava o vintage, descobrir os brechós foi como encontrar um tesouro perdido. Nada de etiquetas, apenas muita liberdade para compor, criar. Era a descoberta do hi-lo também. Desde então, quase não adquiro peças em lojas de novos, apenas de usados. Nas produções para fotografia é a mesma ideia, misturo muito novos e usados, especialmente usados, garimpos, acervo pessoal ou de terceiros (figurinistas).

Sobre sua marca registrada: Os autorretratos em especial vêm me proporcionando um bom feedback, mas acredito que a minha constante fortificação de identidade no trabalho seja a principal marca registrada. É o conjunto de cores, formas, expressões, composições, ideias, entre outros, que fazem meu trabalho ter seu valor.

Sobre suas influências: Muitas outras áreas de criação além da fotografia. Adoro a estética dos musicais americanos, do analog, acredito que minha edição esteja sempre ligada a isso. Sou inspirada constantemente por cinema, música, pintura, artes cênicas, literatura, história, antropologia e a própria fotografia. Interpreto um pouco de tudo e incluo na minha criação, tentando não parecer uma cópia fiel do referencial.

Sobre morar na Itália: Os países da Europa valorizam muito a arte, suas identidades nacionais e educação. Estar aqui é como morar em um museu aberto, tudo inspira. O intercambio cultural também proporciona o aumento de criatividade, de novas observações. O acesso a cursos de especialização é grande, especialmente em Milão, mas não é tão perfeito quanto parece. Muitos cursos utilizam o status de italiano para se promover, mas nem sempre são bons. Os melhores são caros, porém possuem bolsas de estudos que às vezes cobrem 100%, dependendo do talento e da sorte do inscrito. No momento enxergo as possibilidades criativas mais voltadas para convivência, intercâmbio cultural com outros profissionais, novos projetos, aprender o modo de fazer italiano.

Sobre o mercado brasileiro e o internacional: É difícil responder com tão pouco tempo de estadia, mas observo que existe uma diferença entre Brasil e Itália no que diz respeito a direcionamento. No Brasil quando se trabalha com moda, especialmente campanhas comerciais, ainda se tem muito a valorização da roupa (peça física) e não da ideia ou lifestyle que aquele produto proporciona. Isso reflete em outros trabalhos também, pois quando se tenta fazer algo conceitual, muitas vezes deve-se simplificar, para a fácil interpretação do observador. Aqui, a indústria criativa é mais ampla e existe investimento, a educação artística vem desde a infância, criando assim, outra mentalidade para os observadores. Agora, se o acesso é mais fácil, confesso que estou descobrindo também, sozinha, sem qualquer tipo de mailing inicial, apenas com vontade e coragem.

Sobre o futuro: Neste momento estou em fase de adaptação, aprendendo o idioma, conhecendo novos profissionais e o mercado de fotografia daqui. Meu objetivo é aprender, acumular experiências, trabalhar da maneira “italiana”, estudar mais arte, composição, técnica, a claro, continuar estudando a brasilidade, incluir cada vez mais no meu trabalho, utilizar como diferencial.

Texto: Camila Beaumord

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